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Um ar de sua Graça

A minha avó Clementina

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A minha avó Clementina teve uma vida longa. Nasceu quando reinava D. Carlos e quando faleceu eu já tinha 45 anos. Depois de ter faltado 2 dias para assistir ao seu funeral, uns alunos interpelaram-me incrédulos:


- Imagine que nos disseram que a professora foi ao funeral da sua avó! Mas não pode ser! Isso não é possível!


Respondi que sim, que era possível, que era verdade. Abriram-se bocas de espanto. Para miúdos de 11, 12 anos, uma pessoa de 45 está praticamente fossilizada, como é que podia ainda ter avó???!!! Continuavam a olhar-me desconfiados.


-Não pode trazer uma fotografia dela para nós vermos? – perguntou uma miúda mais espevitada.


E no dia seguinte, para que as dúvidas se dissipassem, levei uma foto onde ambas posávamos, a minha avó de olhos sorridentes e expressão prazenteira. Só assim se convenceram.


Foi então que lancei mais uma acha para a fogueira ao informá-los que tinha ainda outra avó, mas esta, graças a Deus, estava viva e benzinho de saúde. Ainda se abriram algumas bocas, ouviram-se alguns “ahs” de surpresa mas já ninguém ousou manifestar-se. Perceberam que daqui tudo se podia esperar!


A minha avó Clementina era a mais nova de quatro irmãos. Os três mais velhos nunca frequentaram a escola. Mas a minha avó tanto suplicou, tanto implorou que lá a deixaram ir fazer a instrução primária que, naquela época, primeiros anos da 1ª República , era de três anos.


Sempre a ouvi falar daqueles três anos como o que de mais maravilhoso lhe acontecera. E os livros por onde aprendeu a ler, a escrever e a contar foram sempre por ela guardados como se de algo sagrado se tratasse. E ainda existem religiosamente acautelados por nós. Como é de calcular, numa época em que a taxa de analfabetismo em Portugal era elevadíssima, a maioria das amigas da minha avó não sabia ler nem escrever. Muitas delas tinham filhos emigrados. Como saber notícias deles?


Uma amiga lembrou-se de pedir à minha avó que lhe lesse as cartas recebidas e lhes desse resposta. E atrás desta amiga outras vieram. Em certos dias a casa parecia um escritório de “import e export”. E eu, miúda, observava com curiosidade. A leitura das cartas, as novidades, a lágrima ao canto do olho pela saudade, os risos pelas traquinices dos netos que mal se conheciam. Depois, era ditada a carta de resposta que a minha avó escrevia meticulosamente com a sua caligrafia miudinha e perfeita. E a minha avó tornou-se, assim, a fiel depositária de alegrias, tristezas, confidências, segredos, vividos por ela com a mesma intensidade como se da sua família se tratasse.


Mas não era só a sua caligrafia que era perfeita.


Onde punha as mãos tudo saia bem. Como nunca viveu na abundância habituou-se a poupar e tudo aproveitar. Nas mãos dela o lixo tornava-se luxo, como hoje se costuma dizer. Dos sacos da farinha fazia guardanapos e panos da loiça.


De tecidos velhos e sobras de lã fazia tapetes bordados usando formas mandadas fazer no latoeiro, nos tamanhos pretendidos.

 

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Presentemente, como já não temos um latoeiro ao virar da esquina, podemos fazer os moldes em cartão, tal como eu fiz, para um tapete que estou a tentar bordar. Na foto poderão ver a técnica usada.

 

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Com sobras de tecidos e linhas de bordar fazia estas almofadas. Ela recortava, caseava, inventava os desenhos e bordava-os. Acho-as adoráveis, tanto mais que me lembro da minha avó a bordá-las com ar entusiasmado e concentrado, com a língua ao canto da boca como fazem as crianças quando estão entretidas a desenhar.

 

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Uma carpete em trapilho

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A minha filha precisava de uma carpete. De preferência a custo zero. E assim sendo, a mãe entra em acção. Dá a mão-de- obra e fornece o material.

Sugeri uma carpete em trapilho. Nunca tinha trabalhado com trapilho e estava com curiosidade em experimentar.

 

A interessada concordou.

Escolhida a cor pus-me em campo à procura do fio. Nada! Nas retrosarias onde costumo fazer compras aqui em Setúbal não vendiam.

Recordava-me de ter visto à venda na retrosaria do El Corte Inglês...

E lá vou eu, de propósito, a Lisboa, ao El Corte Inglês… Compro quatro novelos e a menina assegurou-me que chegava e sobrava. E, simpaticamente, ofereceu-se para receber o novelo excedente caso não precisasse dele.

E lá venho eu toda contente.

E toda contente me sinto ao constatar que trabalhar com trapilho é uma coisa mesmo boa, o trabalho cresce, cresce num instante!

Só que os quatro novelos não chegaram…

E lá volto eu, de propósito, ao El Corte Inglês… Mas a cor pretendida estava esgotada…!!!

Amavelmente, a menina mandou vir e ficou com o meu contacto para me avisar quando chegassem mais novelos.

Quinze dias depois telefonam-me. Os novelos tinham chegado. E lá vou eu outra vez, de propósito ao El Corte Inglês.

Terminado o trabalho e apreciado no chão do escritório da minha filha, faço contas… Com tantas idas e vindas, fio, agulha, gasolina, portagens, estacionamento, esta carpete está quase ao preço … de uma em Arraiolos!

Dias depois, passo por uma loja de chineses… e na montra rolos e rolos e rolos de trapilho de todas as cores… mesmo aqui ao lado de casa…!

 

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