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Um ar de sua Graça

A Páscoa não tarda aí

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À excepção do Natal nunca tive o hábito de decorar a casa de acordo com as épocas, quadras, ou estações do ano.


As minhas prioridades e interesses eram outros e não tinha qualquer disponibilidade para pensar no assunto.


Relativamente à época pascal limitava-me a espalhar amêndoas e ovos de chocolate   colocados em pequenas taças ou frascos de vidro. Coloriam a sala. Alegravam os miúdos.


Depois, o ritmo frenético da vida abrandou. Os compromissos imperiosos, os prazos definidos para ontem cessaram. Surgiram outras prioridades, algumas não menos absorventes e não menos prementes.


E neste meu universo por vezes um pouco opaco vou procurando rasgar pequenas janelas que tragam luz ao meu horizonte.
Os momentos de calma e de bem-estar encontro-os nas agulhas e linhas, enquanto vou criando pequenos projectos que me inspiram e, principalmente, me divertem. E dizem os entendidos que o crochet e o tricot são essenciais para que nos mantenhamos saudáveis quer física quer emocionalmente e que aumentam a nossa produtividade e agilidade mental.  


Quero crer que assim seja!


E assim, todos os pretextos são bons para pôr as mãos na massa ou, dizendo por outras palavras, para por as mãos nas agulhas e nas linhas.
Um painel em crochet simbolizando o Outono, uma manta em lã para aconchego no Inverno, outra em fio de algodão para refrescar a cama no Verão, almofadas em tricot e crochet para o conforto no sofá, foram pequenos trabalhos que foram nascendo das minhas mãos.  


A casa ganha cor e renova-se. Foge-se à monotonia de ver sempre o mesmo, sempre tudo igual e no mesmo sítio.


A Páscoa não tarda aí. E pela primeira vez, esta quadra foi motivo de inspiração. Transformei-me em galinha poedeira e nestes últimos dias foram vários os ovos que fui pondo pela casa. Mais uns passaritos por aqui mais um coelhito por ali e a decoração vai ganhando forma. Nunca está concluída. Cada dia vai surgindo algo de novo. Ao sabor da imaginação.


E assim se vai aliando o sagrado e o profano nas celebrações pascais cá de casa.

 

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A Alzira

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A Alzira era uma velha amiga da minha mãe. Conheciam-se desde crianças.

 

O pai era padeiro e, de menina, a Alzira começou a ajudar a família distribuindo o pão pelas mercearias da vila. Quando chegava junto da minha mãe pedia-lhe lápis e papel e, em meia dúzia de traços, satisfazia a sua urgente necessidade de criar. A minha mãe guardou alguns desses desenhos e lembro-me de, entre eles, do retrato que fez da Beatriz Costa. Estava tal e qual, feito assim de memória, mas com um traço original, único e inconfundível. A minha mãe guardou-os por muito tempo mas, inexplicavelmente, esses desenhos perderam-se nalguma limpeza mais profunda. Infelizmente.

 

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A Alzira casou e foi viver para Lisboa. Fazia trabalhos de costura.

 

Depois de enviuvar regressou à terra e foi então que a conheci. Apesar de apenas ter concluído a quarta classe era uma mulher culta, sensível, de mente aberta e à frente do seu tempo. E passei a admirá-la profundamente. Visitá-la era um prazer. Era um prazer conversar com ela e observá-la no seu espaço, criado à sua imagem e semelhança.

 

Gostava de levar comigo os meus filhos que aprenderam também a apreciá-la. Tinha sempre um miminho para eles, um fóssil, uma pequena pedra que lembrava um animal. E eles ficavam felizes.  

 

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A Alzira em tudo descobria beleza. Numa pequena pedra, num tronco retorcido, numa planta singela. Levava-os para casa e estes materiais tão simples transformavam-se em obras de arte. Como uma pedra que tinha no parapeito da janela. Colou-lhe um pequeno botão a fazer de olho e a pedra transformou-se num coelho pronto a saltar para o nosso colo.

 

E a casa da Alzira? Tão simples por fora como por dentro mas tão única! Única na concepção do espaço, nas peças antigas que a decoravam, nos quadros do filho, artista plástico, e nas peças criadas por ela.

 

 E as peças criadas pela Alzira? Com tecidos, agulhas, linhas, lãs, rendas e botões antigos, saíam peças inimagináveis. E que peças! Colchas, almofadas, bonecos, painéis… eu sei lá!

 

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Certa vez, para um concurso de montras decoradas com motivos de Natal, a Alzira fez um presépio absolutamente fabuloso com dezenas de peças. Um presépio em pano em que as personagens surgiam decoradas com rendas, bordados, missangas, pequeninos botões. Uma obra de arte. Estava tão lindo que a Câmara Municipal decidiu comprá-lo. O mesmo sucedeu com um casamento com perto de uma centena de figuras, desde noivos, padrinhos, menina das alianças e convidados, muitos convidados.

 

Pena é que ambos, presépio e casamento, não estejam expostos no Museu Municipal. Mereciam estar ao dispor de todos os que apreciam estas artes e seria uma justa homenagem a esta artesã da terra a quem a Câmara Municipal tanto gostava de recorrer quando pretendia presentear algum ilustre visitante. Espero bem que não tenham sido comidos pelas traças…   

 

A Alzira não precisava de revistas ou livros para se inspirar. Muito menos de internet, que ainda não estava acessível no seu tempo.

 

Certo dia perguntei-lhe onde ia buscar tanta inspiração. Respondeu-me:

 

-Olho ali para aquela parede branca e vejo lá tanta coisa!

 

Depois era só por mãos à obra…  

 

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Os panos da loiça da minha avó

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Já por aqui deixei bem claro que gosto de rendas, rendinhas, bordados.

 

Peças elaboradas ou muito simples. Todas têm o seu encanto, em todas elas encontro beleza.

 

Gosto de espalhar essas rendas e bordados pela casa. É kitch? Talvez. Mas gosto de me rodear de objectos e peças feitos à mão, feitos com carinho, feitos especificamente para este ou para aquele espaço. Feitos por mim ou por familiares. E que tornam a casa um local especial e único. E a transformam num lar.

 

A minha cozinha não foge à regra.

 

Panos da loiça sem uma rendinha ou sem um pequeno bordado, não são panos da loiça que valham a pena.

 

Todos os que tenho a uso ou ainda por usar têm um picot feito pelas mãos de fada da minha mãe.

 

E há os da minha avó. Esses são especiais. 

 

A minha avó Clementina fê-los quando eu estava para casar. Mulher prática e despachada, oferecia-me o que era utilitário, sem quaisquer sofisticações.

 

O tecido tinha-o lá por casa. Cortou-o. Fez-lhe as bainhas na sua máquina Singer. Em cada pano desenhou um motivo e bordou-o. Por fim fez o picot. E fiquei com meia dúzia de panos da loiça, todos eles diferentes. Todos originais.  

 

E eu que sou rapariga para usar tudo, que não gosto de baús cheios de inutilidades, nunca consegui pôr estes a uso.

 

Tentei várias vezes mas não sou mesmo capaz.

 

Cada um que usasse e que se viesse a estragar era como um pouco da minha avó que se perdesse.

 

Assim, gosto de, por vezes, abrir a gaveta e tirá-los de lá. Enquanto os contemplo é como se a minha avó estivesse ali ao pé de mim.

 

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Já não se escrevem postais de amor como antigamente – Parte III

 Palavra de ordem: Decorar, Decorar

 

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Postais românticos bem organizados. Arrumadinhos. Escondidos em micas. Micas escondidas em dossiês. Dossiês escondidos em gavetas. Ignorados durante meses e meses.


Chegam as saudades.


Abro gavetas, tiro dossiês, folheio as micas, retiro um ou outro postal da respectiva  bolsa, observo-o ao detalhe, contemplo-o com calma descobrindo sempre um pormenor novo em que não reparara antes. E tempo para me sentar no sofá para estes momentos anti- stress de que tanto gosto?


Costumo dizer que já não trabalho por falta tempo, menos ainda para estas actividades contemplativas!


Mas encontrei a solução. Bem simples. Espalhando-os pela casa, integrando-os na decoração.


Uns, em quadros, decoram o corredor.

 

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Depois lembrei-me da moldura antiga da minha sogra. É metálica, pesada. Sempre gostei do trabalhado dela mas precisava de um toque mais moderno e alegre. Pintei-a de branco e gostei do resultado. Em vez de fotografia coloquei-lhe um postal. Neste momento ostenta um dos que mais gosto. Quando me cansar troco-o por outro.
Mais recentemente ocorreu-me outra ideia que rapidamente pus em prática.


Comprei uma tela. Forrei-a com tecido. Fiz uma prospecção pelas “caixas dos tesouros da minha mãe” e escolhi rendas, galões, fitas. Acrescentei umas chaves velhas, muito velhas da casa da minha avó. Escolhi um postal e apliquei-o. Com a particularidade de este não estar colado. Apenas preso pelas rendas e facilmente substituído por outro, quando deste me cansar.


Deste modo, aqui estão eles sempre, sempre à beira de um olhar.

 

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Zezito e Mirita

Apresento-vos o Zezito e a Mirita, assim baptizados por mim quando era criança. Gostava do ar sorridente e das bochechas rechonchudas e coradas que lhes acentuava o aspecto simpático. Ambos viveram durante muitos e muitos anos nas cozinhas da minha mãe.

 

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Ponto, para tudo!


Desconfio que a minha afirmação anterior “cozinhas da minha mãe” deve ter provocado alguma perplexidade no meu vasto círculo de leitores, e até vislumbro algumas rugas nas vossas testas. Mas vamos lá esclarecer as dúvidas:


- Refiro-me a cozinhas, no plural, porque, tendo em conta a profissão do meu pai, percorremos o país de lés a lés. Por essa razão, foram bastantes as casas onde vivemos e, consequentemente, as cozinhas que tivemos.  Em todas elas o Zezito e a Mirita surgiam pendurados numa das paredes, convidando-nos a entrar, com o mais simpático dos sorrisos.


- Afirmo que as cozinhas eram da minha mãe. Pois, concordo que seja uma expressão um tanto ou quanto sexista, mas não há dúvida que a cozinha era o domínio da minha mãe, onde ela era rainha e senhora. O meu pai, senhor de outros tempos, nem um ovo sabia estrelar e eu, já em miúda, deixava antever que aquela não era, de todo, a minha dependência preferida da casa.


Mas voltemos ao casalinho Zezito e Mirita. 

    
Quando os meus pais abandonaram a vida de saltimbancos (salvo seja), assentaram arraiais e passaram a viver em casa própria, a minha mãe achou que era altura de dispensar o Zezito e a Mirita e despediu-os por justa causa : já não se enquadravam na decoração. Nunca mais os vi e, confesso, esqueci-me até da sua existência.

 

Acontece que há pouco tempo, nestas minhas pesquisas proveitosas em casa da minha mãe, encontrei uma velha caixa de cartão esquecida nos confins de um armário. Puxo a caixa, retiro-lhe a tampa e que vejo eu? O Zezito e a Mirita a olharem para mim. Curiosamente continuavam bochechudos, rosados e sorridentes.


Achei que era altura de regressarem ao activo.


Comprei uma moldura branca, forrei o fundo com tecido cor de morango às pintinhas e colei o parzinho. E voltaram à cozinha. Neste caso à cozinha cá de casa, tendo um lugar de destaque no meu cantinho do café.

 

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Estou convencida que eles estão agora mais felizes por terem regressado à luz do dia.

 

É que há dias pareceu-me ver o Zezito a piscar-me o olho…


Ou seria impressão minha?

 

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Será que os Ojíbuas tinham razão?

Sinto uma atracção irresistível pelas gavetas e armários da minha mãe.


Abrir as gavetas das cómodas e as portas dos armários é um verdadeiro prazer para os sentidos.


A roupa, desde lençóis, lenços, toalhas de mesa, toalhas de banho, panos de cozinha, passando por roupa de vestir, tudo tem o seu sítio certo, milimetricamente arrumado, impecavelmente passado a ferro. Tudo muito direito, liso e macio.


O mesmo acontece com os mais variados objectos, passando por caixas e caixinhas de todos os tamanhos.

 

Para além do rigor da arrumação, então e o perfume que imana das cómodas e dos roupeiros? É de morrer de inveja! Embora eu use sabonetes iguais, saquinhos de alfazema colhida no mesmo local (o jardim da minha tia), as minhas gavetas não cheiram tão bem como as da minha mãe.


Não tenho outro remédio senão a resignação.


Mas o que é que as gavetas e armários da minha mãe têm a ver com os Ojíbuas? Têm tudo a ver. Ora vamos lá por partes.


Parte um: É que nos armários da minha mãe, dentro daquelas caixas e caixinhas há sempre tesourinhos a desvendar. Ao abri-las, parto para um mundo cheio de surpresas e potencialidades, qual criança à descoberta dos presentes escondidos, nas vésperas de Natal. Nessas caixas guardam-se sobras de bordado inglês, de galões com pompons, de galões com  franjinhas, de galões com flores, rendas amarelecidas pelo tempo, fitas de seda, bastidores. Amostras em crochet meticulosamente executadas pela minha mãe para futuras colchas ou toalhas, que a voracidade do tempo não permitiu concretizar.


Encontrar tudo isto foi quase como ganhar o euromilhões. Eu disse quase…


O que se pode criar com todo este manancial! Haja imaginação e tempo…!


Ora bem, é aqui que os Ojíbuas começam a aparecer.


Parte dois:  Mas quem são os Ojíbuas, perguntam.  


Os Ojíbuas eram um povo indígena da América do Norte. Tal como qualquer povo indígena, tinham uma forte ligação à natureza e à espiritualidade. Eles acreditavam que ao cair da noite o ar se enchia de sonhos. Uns eram bons outros maus. Então, achavam necessário separar os sonhos bons, portadores das boas energias dos sonhos maus, carregados de energias negativas.


Como é que os Ojíbuas faziam essa separação?


Construíam os filtros dos sonhos, também conhecidos pelos nomes de apanhadores de sonhos, caça sonhos ou ainda espanta pesadelos que tinham como função a captação das energias positivas, permitindo bons sonhos e dissipando os sonhos maus, os pesadelos, as energias maléficas. Construíam-nos com aros de salgueiro, revestiam-nos com tiras couro. A este aro ligavam vários fios que formavam uma espécie de teia de aranha. Penduravam outros fios nos quais enfiavam pequenas contas, e juntavam-lhes penas ou outros objectos a que atribuíssem algum significado.


Parte três: Presentemente os caça sonhos em versão contemporânea estão na moda. Encontram-se à venda em lojas, feiras de artesanato, encontramo-los em revistas de crochet, na internet.


Acho-os lindíssimos.


Parte quatro: E então… vou às caixas da minha mãe, olho todos aqueles tesouros e vou retirando bastidores, rosetas, fitas de seda, rendas e até um colar velho e algumas pérolas de um colar partido.

 

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Acrescentei algumas pedras que tinha cá em casa, uma chave velha da casa dos meus avós, um berlicoque de um fio.


Fiz três caça sonhos. Um para mim, outro para a minha filha e um terceiro para oferecer a uma amiga e do qual não tenho foto.


Não sei bem se os três caça sonhos estarão a cumprir a função para a qual os Ojíbuas os criaram. Pela parte que me toca, por vezes ainda tenho alguns pesadelos. Mas pelo menos cumprem a missão para a qual eu os concebi – embelezam a casa.

 

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Se o arrependimento matasse…

As floreiras fazem parte das minhas memórias de infância. Havia-as em casa dos meus avós maternos e paternos.


Consideravam-nas tão utilitárias como decorativas e era frequente elas servirem de adereço em sessões fotográficas. Se não acreditam podem comprovar a veracidade desta minha afirmação nesta foto tirada em casa dos meus avós paternos, Joaquina e Chico, onde a minha pessoa, com cinco aninhos, posa para a posteridade ao lado de uma.

 

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Recordo-me destas floreiras, tanto na casa de uns como de outros, ornamentadas com grandes fetos que enchiam as salas de verde e frescura.


A floreira da casa dos meus avós maternos veio parar cá a casa. Pedia-a à minha mãe e tenho-a há bastantes anos. É uma forma de manter o “cordão umbilical” com as pessoas, os espaços, as memórias de outrora.


Mas a velha floreira é mesmo uma floreira velha. No sentido literal do termo. Se eu gosto da floreira, o bicho da madeira gostou dela tanto quanto eu e, a pouco e pouco, muito lentamente, tem-na  devorado.  Apesar de ter levado um tratamento este revelou-se ineficaz e está irremediavelmente perdida. Mal se lhe toca, vai-se partindo. Por essa razão, decidi comprar uma e já começara a minha prospecção pelas feiras de velharias.


Eis senão quando…


Certo dia o meu sogro, num dos seus passeios higiénicos pela cidade, encontrou uma floreira mesmo encostada ao contentor do lixo. Com o seu olhar clínico e experiente, logo se apercebeu que a peça era de boa madeira e que estava em excelente estado de conservação. Pegou nela e levou-a para casa…


Entra em casa todo contente com a aquisição…


A minha sogra olha para ele e desconfia… E pergunta:


-Mas onde é que arranjaste isso?


Quando o meu sogro lhe responde que fora no lixo, a minha sogra ia tendo uma síncope.


-No liiiiixo???!!!  Sabe-se lá de quem isso era! E se era de alguém com uma doença contagiosa???!!!


Estavam os dois nesta discussão, um querendo a floreira lá em casa, o outro a querer recambiá-la de lá para fora. Nisto, cheguei eu.


Vejo a floreira e os meus olhos brilham, ouço campainhas a tilintar. Uma floreira? Era mesmo uma daquelas que eu andava à procura.


Disse que gostava dela. Olham os dois para mim como uma tábua de salvação. O meu sogro, satisfeito, porque havia alguém que compreendia a sua operação de resgate.

 

A minha sogra, satisfeita, porque havia alguém que lhe libertava a casa daquele objecto infecto.    

 

E a floreira do lixo  mudou de casa. Para a minha.


Durante anos esteve tal e qual como veio, ostentando o seu belo tom de castanho dourado.Olhava para ela e lembrava-me das outras, das dos meus avós.


Mas um dia, quando me chegou a mania das pinturas, decidi pintá-la.

 

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Na altura fiquei muito satisfeita com o resultado. Foi dos primeiros pequenos móveis que pintei e achei que não me saíra mal. Mas com o passar do tempo, fui sentindo, algo de estranho, quando olhava para ela. Perguntava a mim própria o que seria. Continuava a gostar dela? Claro que sim. Gosto mesmo bastante dela.


Mas…  


Pensei, reflecti e descobri.


Esta floreira, assim pintada de verde é outra floreira completamente diferente. É outro móvel, tem outra história. Já não tem a história que eu desejava que tivesse.


Já não me faz lembrar as velhas floreiras que conheci em casa dos meus avós.


Perdeu um pouco do seu carácter, perdeu um pouco da sua alma.


E é pena!

 

 

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Melhor do que ir à loja

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Ora digam-me lá… onde é que habitualmente se vai quando é preciso mobilar uma casa?


Pois… é isso mesmo! Vamos às grandes superfícies que vendem de tudo ou a lojas de decoração mais exclusivas. Tal e qual!


Só que com a mais nova cá de casa não foi exactamente assim. Onde é que a minha filha se foi abastecer quando começou a mobilar o seu cantinho?  


Pois nada mais, nada menos do que à garagem cá de casa!


E, a pouco e pouco, foram saindo de lá a cama de ferro antiga que foi da minha mãe e o respectivo colchão, duas cadeiras, a máquina de costura do pot anterior, uma pequena mesa redonda, outra pequena mesa que serviu para pôr o telefone em casa dos meus sogros, uma mesa de cozinha e um pequeno armário. Bem melhor do que ir ao Ikea! É que aqui não foi preciso pagar à saída.


Tudo isto na garagem? É fácil explicar porquê.


Tenho dificuldade em desfazer-me dos objectos. Apego-me a eles, encontro-lhes sempre algum significado, algum encanto, alguma história, alguma recordação.


Quando alguma peça de mobiliário deixa mesmo de se enquadrar no nosso espaço prefiro oferecê-la a quem precise. Outras foram lá guardadas à espera de novas oportunidades.


É das duas últimas peças referidas - a mesa de cozinha e o pequeno armário - que venho falar hoje. Foram para a garagem quando mudámos de casa, há já uns vinte anos. A mesa não se enquadrava na actual cozinha e, quanto ao armário, já não gostava dele.


E foi assim que passaram a habitar a cozinha da minha filha. Lá, em cima de cartões para não sujar o chão, demos-lhe um novo visual para disfarçar a passagem do tempo. Pintámos mesa e armário com as mesmas cores uma vez que se destinavam ao mesmo espaço - branco e verde - com tinta Chalk Paint e depois aplicámos cera.

 

Estas tintas são ideais para aplicar técnicas, tais como a pintura shabby chic e a pintura provençal que dão às peças um ar envelhecido. Mas a minha filha não aprecia. Gosta que tudo fique com um ar novinho, para velho deixa-se como está…


Não deixa de ter alguma lógica!   

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Histórias de velhas máquinas de costura

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Gosto de objectos antigos. De velharias. De simples peças do quotidiano que marcam uma época, que contam histórias, que transportam memórias.


Amo, sobretudo os “meus” objectos. Aqueles que na minha família, de geração em geração, chegaram até mim, me ajudam a perceber de onde vim e quem sou. Objectos que contextualizam a minha maneira de estar na vida.


Têm valor monetário? Não, mas que importa isso?


Para mim estão carregados de um valor simbólico e afectivo muito mais valioso de que qualquer valor económico. Destes objectos carregados de significado há um que aprecio particularmente. A máquina de costura da minha avó. A máquina da minha avó está ainda em perfeito estado de conservação e ainda cose na perfeição.


Lembro-me perfeitamente da minha avó sentada junto dela a fazer as costuras necessárias para o dia-a-dia. Panos da loiça, guardanapos, aos quais ela acrescentava sempre um toque pessoal fazendo um pequeno bordado e um picô.


Recordo também com saudade a menina Quitas, costureira que vinha a casa das clientes e me costurava vestidos, pijamas, bibes.


Embora hoje já ninguém utilize a máquina da minha avó, espero que ela se mantenha assim, tal e qual está, por muitos e bons anos, como peça decorativa.


Mas havia outra. A da minha sogra. Esta, no entanto, acusava a passagem do tempo. Pés enferrujados, tampo muito danificado, cabeça salpicada de manchas. Já nem cosia. Foi parar à garagem à espera de melhores dias e de alguma inspiração.


E esse dia chegou.


A minha filha e eu arregaçámos as mangas. Retiramos-lhe a cabeça e levámos a máquina a um carpinteiro que retirou o tampo velho e fez um novo, maior, com gaveta ao meio. Feito isto, carregámo-la para casa e deitámos mão à obra. Retirámos a ferrugem, lavámos tudo muito bem lavado e depois passámos à fase da pintura.


Que prazer ver a nossa peça a ser transformada, a ficar como a idealizámos! Deu trabalho, muito trabalho, por vezes colocando-nos em posições acrobáticas para pintar os sítios mais inacessíveis.


Pusemos um puxador colorido na gaveta.


E a velha máquina de costura da minha sogra transformou-se numa secretária.


É agora utilizada pela minha filha que se senta na cadeira que pertenceu ao quarto de solteiro do pai e que também foi pintada por nós.


Tudo em família e da família!

 

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Caixas e caixinhas…em “craquelê”

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Sou eu e o Picasso. Tal e qual, assim sem tirar nem pôr.

 

Do Picasso conhecemos várias fases, a azul, a rosa, a africana, o cubismo analítico, o cubismo sintético, etc, etc, etc.

 

Acontece que eu tenho a fase do ponto de cruz, a fase das caixas pintadas, a fase dos móveis pintados, a fase dos feltros, a fase do tricot, a fase do crochet… Tudo em comum entre nós os dois como se pode comprovar.

 

Quando os meus interesses se canalizavam para uma destas “artes” era única e exclusivamente isso que fazia. Cada coisa na sua vez. Até me fartar e partir para outra “arte” completamente diferente.

 

Agora, talvez porque mais impaciente e menos tolerante com a monotonia, diversifico as actividades e são variadíssimos os trabalhos que tenho entre mãos...

 

…uma manta em tricot… uma manta em crochet… uma almofada em tricot… uma almofada em crochet… uma echarpe em tricot…

 

…Tudo começado … nada concluído…Tudo em nome do NÃO À ROTINA no que a “handmade life” diz respeito. 

 

Esta é uma longa introdução para falar sobre a minha fase das caixas pintadas. Depois de experimentar a técnica de “decoupage” resolvi experimentar a técnica de “craquelê” que significa “rachado” ou “estalado”. O verniz que se utiliza sobre a tinta faz que, com  a secagem, esta encolha e fique com o aspecto de fendas muito finas, dando à peça um ar de envelhecimento.

 

Diverti-me a pintar caixas e caixinhas com esta técnica. Uso-as para guardar brincos, anéis, fios.

 

Pelo menos, o quarto fica mais arrumadinho, sem bugigangas espalhadas por todo o lado.

 

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