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Um ar de sua Graça

Já não se escrevem postais de amor como antigamente - Parte 1

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Tio João e Alice

 

Há objectos que me encantam. E se me encantam gosto de me ver rodeada por eles, coleccionando-os.

 

Das minhas colecções, a mais antiga começou na adolescência quando encontrei, por acaso, em casa dos meus avós, uma dúzia de postais românticos. Achei-os lindos. Havia-os com crianças sorridentes, casais abraçados, flores bordadas a seda. Fascinou-me o vestuário e acessórios usados, o mobiliário, caracterizando bem a época a que pertenciam. Alguns com cenários de paisagens produzidos em estúdio. Encantei-me com as cores, suaves e desmaiadas, com o cheiro do papel há muito tempo guardado.

 

E o texto? Sem nunca deixar de me sentir um pouco constrangida por violar a privacidade de quem os escreveu e recebeu, e ainda hoje assim acontece, não posso deixar de ficar fascinada com o rigor e perfeição da caligrafia de outrora, com a escrita escorreita e formal, com a delicadeza do tratamento entre as pessoas, mesmo que entre elas laços estreitos de familiaridade existissem. Logo me apercebi que os postais ilustrados são um manancial precioso de informações e de referências sobre a sua época, mais ainda para quem como eu gosta de História.

 

Entusiasmada comecei por perguntar a familiares próximos e pessoas amigas se não teriam lá por casa, postais românticos antigos esquecidos e abandonados algures e que não se importassem dos ofertar à minha pessoa. Nalguns casos tive êxito e da dúzia inicial passei a ter 15, 20.

 

E é aqui que surge o tio João.

 

O meu tio João emigrou para França à procura de melhores oportunidades de trabalho. Era jovem, solteiro. Lá conheceu a jovem francesa Alice, e apaixonaram-se. Mas a ameaça que pairava sobre a Europa, ensombrou este amor. Estava-se em 1939… e a segunda Grande Guerra rebentou. O tio João equacionou a vida. Decidiu acabar tudo o que entre eles havia e regressou a Portugal… sozinho. Regressou à terra, à família, à paz.

 

Mas a Alice não se conformava. E, inconsolável, durante alguns anos escreveu ao seu adorado “Jeannot” postais ilustrados, todos eles com casais apaixonadamente abraçados. Estes postais, eram diminutos rectângulos de cartão para tão transbordante, intensa e sofrida paixão. A Alice escrevia no verso, na frente, em todas as direcções, por vezes até sobre o rosto das personagens fotografadas, denunciando todo o desespero que este amor interrompido lhe provocava na alma.

 

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O tempo foi passando e a frequência da escrita apaixonada da Alice foi-se tornando mais escassa. Até que terminou. Ter-se-á finalmente convencido da finitude daquele amor impossível? Talvez.

 

Não me recordo como o tio João soube da minha paixão por postais antigos. Mas nunca poderei esquecer o dia em que me apareceu com um envelope volumoso.

 

-Isto é para a menina. Era assim que me tratava.

 

Abri o envelope, incrédula. Aquele meu tio com uma colecção de postais românticos??? E foi então que ele me contou esta história.

 

Senti-me profundamente comovida. Pela história que desconhecia e, sobretudo, pelo facto de ele ter preservado estes postais durante mais de quarenta anos. A memória daquele amor continuava bem viva ao fim de tanto e tanto tempo. Comovida também pela responsabilidade que me atribuíra ao escolher-me para fiel depositária daquele espólio.

 

Os postais do tio João não são, de modo nenhum, os mais bonitos ou valiosos da minha colecção mas são, sem dúvida, os de maior significado. Porque conheço a sua história e pela responsabilidade que me foi confiada.

 

E quanto a isso, tio João e Alice, podem descansar em paz, os vossos postais estão em boas mãos.    

 

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