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Um ar de sua Graça

Os panos da loiça da minha avó

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Já por aqui deixei bem claro que gosto de rendas, rendinhas, bordados.

 

Peças elaboradas ou muito simples. Todas têm o seu encanto, em todas elas encontro beleza.

 

Gosto de espalhar essas rendas e bordados pela casa. É kitch? Talvez. Mas gosto de me rodear de objectos e peças feitos à mão, feitos com carinho, feitos especificamente para este ou para aquele espaço. Feitos por mim ou por familiares. E que tornam a casa um local especial e único. E a transformam num lar.

 

A minha cozinha não foge à regra.

 

Panos da loiça sem uma rendinha ou sem um pequeno bordado, não são panos da loiça que valham a pena.

 

Todos os que tenho a uso ou ainda por usar têm um picot feito pelas mãos de fada da minha mãe.

 

E há os da minha avó. Esses são especiais. 

 

A minha avó Clementina fê-los quando eu estava para casar. Mulher prática e despachada, oferecia-me o que era utilitário, sem quaisquer sofisticações.

 

O tecido tinha-o lá por casa. Cortou-o. Fez-lhe as bainhas na sua máquina Singer. Em cada pano desenhou um motivo e bordou-o. Por fim fez o picot. E fiquei com meia dúzia de panos da loiça, todos eles diferentes. Todos originais.  

 

E eu que sou rapariga para usar tudo, que não gosto de baús cheios de inutilidades, nunca consegui pôr estes a uso.

 

Tentei várias vezes mas não sou mesmo capaz.

 

Cada um que usasse e que se viesse a estragar era como um pouco da minha avó que se perdesse.

 

Assim, gosto de, por vezes, abrir a gaveta e tirá-los de lá. Enquanto os contemplo é como se a minha avó estivesse ali ao pé de mim.

 

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Duas echarpes separadas pelo tempo

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Com treze anos comprei o meu primeiro lenço. Depois deste outros se seguiram. Era muito friorenta, constipava-me facilmente, a garganta inflamava e sabia-me bem o aconchego de um lenço em redor do pescoço.

 

A seguir descubro as echarpes. E vou sempre comprando. Ora um lenço, ora uma echarpe…

 

E ao longo dos anos as gavetas e cabides vão-se enchendo de lenços e echarpes. Muitos, muitos, comprados por mim, outros oferecidos por familiares e amigos que conhecem esta minha paixão (mais uma!)


Gosto de ambos, lenços e echarpes pela utilidade que neles encontro mas também como acessório. São mesmo os meus acessórios predilectos. Prefiro-os aos colares, por exemplo.   

 
E aqui sou diferente do comum dos mortais. Ao contrário do que é habitual – escolher primeiramente a roupa que se vai vestir e, em seguida, procurar-se um lenço ou echarpe que se harmonize – eu começo por escolher o lenço. Ou a echarpe. Só depois é que abro o roupeiro e decido o que vestir em função do acessório escolhido.  

 

E a pouco e pouco, sem o ter premeditado, apercebo-me que, tal como colecciono postais românticos, também colecciono echarpes e lenços de pescoço.
Quando uma amiga me chamou a Imelba Marcos dos lenços fiquei de sobrolho carregado!!! Ora esta, não querem lá ver?!

 

Entre nós as duas há todo um universo de diferenças! Ora repare-se.

 

 A senhora, ou seja a Imelba, foi a primeira dama da Filipinas. Eu apenas sou a primeira dama cá de casa.  

 

A senhora, ou seja a Imelba, coleccionava sapatos. Eu apenas colecciono lenços e echarpes.

 

A senhora, ou seja a Imelba, tinha sapatos aos milhares. Fala-se em mais de três mil pares! Os meus lenços e echarpes não devem chegar à centena.

 

A senhora, ou seja a Imelba, tinha sapatos caríssimos. Os meus lenços e echarpes são baratinhos…

 


E, segundo consta, os sapatos da senhora, ou seja da Imelba, tiveram um triste fim, cobertos de bolor e carunchosos. Os meus lenços e echarpes continuam, todos eles de perfeita saúde, bonitinhos e perfumados. E ainda preservo o primeiro lenço dos meus treze anos.


De todas as echarpes, apenas duas são feitas por mim. A primeira fi-la aos dezassete anos. A segunda terminei-a há uns dois, três dias.

 

Décadas separam uma  da outra.

 

Ao finalizar esta última, penso escrever um post sobre elas e é então que, com surpresa,  constato que, embora usando técnicas deferentes, ou seja, a primeira em crochet e a última em tricot, elas são em tudo o mais muito semelhantes, apesar de haver  taaaaannnnntos anos a separá-las.

 
A mesma cor, amarela. E minha cor preferida. Desde sempre.

 

Ambas com uma barra mais fechada. Na primeira em cordão. Na segunda em liga.

 

Ambas com uma barra aberta. Na mais antiga, com anéis que fiz enrolando o fio ao dedo. Na mais recente, usando o ponto de carreiras abertas.

 

Que posso concluir?    

 

Várias décadas se passaram mas as mudanças em mim não foram tantas como eu própria poderia imaginar. Os mesmos gostos, os mesmos interesses continuam presentes.


Enfim, sou mesma Graça de sempre.

 

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Já não se escrevem postais de amor como antigamente – Parte III

 Palavra de ordem: Decorar, Decorar

 

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Postais românticos bem organizados. Arrumadinhos. Escondidos em micas. Micas escondidas em dossiês. Dossiês escondidos em gavetas. Ignorados durante meses e meses.


Chegam as saudades.


Abro gavetas, tiro dossiês, folheio as micas, retiro um ou outro postal da respectiva  bolsa, observo-o ao detalhe, contemplo-o com calma descobrindo sempre um pormenor novo em que não reparara antes. E tempo para me sentar no sofá para estes momentos anti- stress de que tanto gosto?


Costumo dizer que já não trabalho por falta tempo, menos ainda para estas actividades contemplativas!


Mas encontrei a solução. Bem simples. Espalhando-os pela casa, integrando-os na decoração.


Uns, em quadros, decoram o corredor.

 

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Depois lembrei-me da moldura antiga da minha sogra. É metálica, pesada. Sempre gostei do trabalhado dela mas precisava de um toque mais moderno e alegre. Pintei-a de branco e gostei do resultado. Em vez de fotografia coloquei-lhe um postal. Neste momento ostenta um dos que mais gosto. Quando me cansar troco-o por outro.
Mais recentemente ocorreu-me outra ideia que rapidamente pus em prática.


Comprei uma tela. Forrei-a com tecido. Fiz uma prospecção pelas “caixas dos tesouros da minha mãe” e escolhi rendas, galões, fitas. Acrescentei umas chaves velhas, muito velhas da casa da minha avó. Escolhi um postal e apliquei-o. Com a particularidade de este não estar colado. Apenas preso pelas rendas e facilmente substituído por outro, quando deste me cansar.


Deste modo, aqui estão eles sempre, sempre à beira de um olhar.

 

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Já não se escrevem postais de amor como antigamente – Parte II

Palavra de ordem: Organizar, Organizar

 

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A minha colecção de postais românticos foi crescendo ao longo dos anos e tem acompanhado a minha vida desde a adolescência até ao presente.


Depois de iniciar a colecção com os que encontrei em casa dos meus avós, com os poucos que consegui junto de familiares e amigos e com o substancial acréscimo com os que herdei do meu tio João, nunca mais deixei de comprá-los. Procuro-os em feiras e lojas de velharias e sempre que posso, em Lisboa vou até à rua do Crucifixo onde, numa loja no segundo andar de um prédio pombalino, a escolha de postais se torna uma tarefa tão difícil quanto entusiasmante. E que prazer folhear todos aqueles álbuns repletos de postais, sentir-lhes o cheiro, apreciar-lhes as cores, as texturas, os materiais.


Encontramo-los em seda, em papel de arroz, com bordados, rendas, missangas, lantejoulas, dourados, relevos, pintura à mão, mais antigos e mais recentes, postais fotográficos (usando a fotografia), postais cromolitografados  (recorrendo à ilustração), sendo estes últimos os meus preferidos. É não saber o que escolher perante tanta variedade, é ficar extasiada perante tanta beleza, é…perder a cabeça!

 

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Os preços variam conforme o estado de conservação, materiais usados, raridade, renome do ilustrador (neste caso em relação aos cromolitografados).
Infelizmente, o meu primeiro critério de selecção é o preço. Alguns são verdadeiramente proibitivos.  Revendo ao meus postais para este post , o que  já não o fazia há algum tempo, encontrei dois a 6000 escudos cada!!! O preço estava ainda escrito a lápis no verso. Para quem não recorda, 6000 escudos correspondem a 30 Euros!!!
Onde é que eu tinha a cabeça para dar tanto dinheiro por aqueles postais?! Devia estar verdadeiramente louca!


Depois de abrir os cordões à bolsa é o regresso a casa de coração cheio e de carteira vazia.


Em casa segue-se a etapa seguinte  – a organização – tarefa não menos agradável, que se vai fazendo aos poucos, lentamente, de acordo com o tempo disponível e por isso mesmo tão saborosa. Nem sempre é tarefa fácil mas também na dificuldade reside o encanto. Organizo-os por temas em dossiês, dentro de micas. Dossiês com casais, com crianças, com jovens raparigas, festividades, os dossiês com postais cromolitografados.

 

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Dentro de cada temática integro-os em subcategorias. Só para exemplificar, relativamente ao tema crianças, tenho o subtema de bebés, crianças com brinquedos, crianças com animais, crianças com instrumentos musicais, crianças com livros, ao ar livre, etc, etc, etc.  

 
Por vezes não é fácil integrá-los numa categoria, porque o mesmo postal se pode enquadrar em várias categorias diferentes, como por exemplo, o que apresento a seguir que, sendo um  postal de Natal, nele podemos ver dentro da carruagem um par apaixonado. Onde colocá-lo? Festividades? Casais apaixonados?
Mas também estes dilemas, que acarretam alguma subjectividade, fazem parte do encanto do coleccionismo.

 

Uma particularidade deste postal é o facto de ter dupla face, o que não é muito comum.

 

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Estes postais românticos marcam uma época em que a comunicação se fazia de modo inteiramente diferente, a vida corria mais lentamente e as relações entre as pessoas estavam estruturadas de outra forma. São postais que durante anos e anos foram carinhosamente guardados e cuidados por quem os recebeu. Noivas, namorados, jovens aniversariantes. Enviados de mães para filhos, de filhas para mães, de madrinhas para afilhadas, de avós para netos…


Arquivados em deliciosos álbuns.


Por condicionalismos da vida os herdeiros venderam-nos a negociantes de velharias. Não me compete julgá-los.


Mas por vezes dou por mim a contemplar estes postais com uma pequena centelha de nostalgia. O que pensariam todos aqueles que, através dos postais, receberam mensagens de carinho e provas de amor, ao saberem que estes foram passando de mão em mão e que se encontram actualmente na posse de estranhos que nada sabem da sua história de vida?


É por tudo isto que aqui enuncio que os postais herdados do meu tio João me são tão queridos e ocupam um lugar privilegiado na minha colecção.   

 

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Já não se escrevem postais de amor como antigamente - Parte 1

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Tio João e Alice

 

Há objectos que me encantam. E se me encantam gosto de me ver rodeada por eles, coleccionando-os.

 

Das minhas colecções, a mais antiga começou na adolescência quando encontrei, por acaso, em casa dos meus avós, uma dúzia de postais românticos. Achei-os lindos. Havia-os com crianças sorridentes, casais abraçados, flores bordadas a seda. Fascinou-me o vestuário e acessórios usados, o mobiliário, caracterizando bem a época a que pertenciam. Alguns com cenários de paisagens produzidos em estúdio. Encantei-me com as cores, suaves e desmaiadas, com o cheiro do papel há muito tempo guardado.

 

E o texto? Sem nunca deixar de me sentir um pouco constrangida por violar a privacidade de quem os escreveu e recebeu, e ainda hoje assim acontece, não posso deixar de ficar fascinada com o rigor e perfeição da caligrafia de outrora, com a escrita escorreita e formal, com a delicadeza do tratamento entre as pessoas, mesmo que entre elas laços estreitos de familiaridade existissem. Logo me apercebi que os postais ilustrados são um manancial precioso de informações e de referências sobre a sua época, mais ainda para quem como eu gosta de História.

 

Entusiasmada comecei por perguntar a familiares próximos e pessoas amigas se não teriam lá por casa, postais românticos antigos esquecidos e abandonados algures e que não se importassem dos ofertar à minha pessoa. Nalguns casos tive êxito e da dúzia inicial passei a ter 15, 20.

 

E é aqui que surge o tio João.

 

O meu tio João emigrou para França à procura de melhores oportunidades de trabalho. Era jovem, solteiro. Lá conheceu a jovem francesa Alice, e apaixonaram-se. Mas a ameaça que pairava sobre a Europa, ensombrou este amor. Estava-se em 1939… e a segunda Grande Guerra rebentou. O tio João equacionou a vida. Decidiu acabar tudo o que entre eles havia e regressou a Portugal… sozinho. Regressou à terra, à família, à paz.

 

Mas a Alice não se conformava. E, inconsolável, durante alguns anos escreveu ao seu adorado “Jeannot” postais ilustrados, todos eles com casais apaixonadamente abraçados. Estes postais, eram diminutos rectângulos de cartão para tão transbordante, intensa e sofrida paixão. A Alice escrevia no verso, na frente, em todas as direcções, por vezes até sobre o rosto das personagens fotografadas, denunciando todo o desespero que este amor interrompido lhe provocava na alma.

 

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O tempo foi passando e a frequência da escrita apaixonada da Alice foi-se tornando mais escassa. Até que terminou. Ter-se-á finalmente convencido da finitude daquele amor impossível? Talvez.

 

Não me recordo como o tio João soube da minha paixão por postais antigos. Mas nunca poderei esquecer o dia em que me apareceu com um envelope volumoso.

 

-Isto é para a menina. Era assim que me tratava.

 

Abri o envelope, incrédula. Aquele meu tio com uma colecção de postais românticos??? E foi então que ele me contou esta história.

 

Senti-me profundamente comovida. Pela história que desconhecia e, sobretudo, pelo facto de ele ter preservado estes postais durante mais de quarenta anos. A memória daquele amor continuava bem viva ao fim de tanto e tanto tempo. Comovida também pela responsabilidade que me atribuíra ao escolher-me para fiel depositária daquele espólio.

 

Os postais do tio João não são, de modo nenhum, os mais bonitos ou valiosos da minha colecção mas são, sem dúvida, os de maior significado. Porque conheço a sua história e pela responsabilidade que me foi confiada.

 

E quanto a isso, tio João e Alice, podem descansar em paz, os vossos postais estão em boas mãos.    

 

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Um desafio em 10 perguntas...

 

Fui desafiada pela Joana, do Quiosque da Joana, para responder a um desafio. É o meu baptismo nestas brincadeiras.

 

Vamos lá então.

 

Oferecem-te uma viagem no tempo que não podes recusar. Viajas 10 anos para trás ou para a frente?

 

Preferia viajar para o passado e procurava desfrutar melhor as situações que, por condicionalismos vários, vivi mais apressadamente. Iria saboreá-los de outra forma.

 

Viajar para o futuro, nem pensar. Prefiro não saber o que ele me reserva. O efeito surpresa é sempre mais agradável.

 

Um filme que te arrependes de ter visto?

 

Arrependi-me de ver vários, porque eram maus. Mas se os achei maus esqueci-os. Só recordo os que me marcaram pela positiva.

 

Prepara-te para fazer duas das escolhas mais difíceis deste mundo [ou talvez não]: um telemóvel com wi-fi mas sem carregador ou um telemóvel com carregador mas sem wi-fi?

 

Sendo pouco dada a tecnologias, para mim qualquer telemóvel serve. Por isso opto por um com carregador. O mais importante é fazer e receber chamadas, mandar e receber mensagens.

 

Fotografar ou ser fotografada?

 

Nem uma coisa nem outra. Sou péssima a fotografar e especialista em cortar cabeças e pés [n.d.r. Não literalmente!]. Mas também não me preocupo muito, tenho cá em casa quem faça o trabalho por mim. Também não gosto de ser fotografada. Fico tão mal que sou motivo de risota.

 

Se tivesses obrigatoriamente de apagar o blog amanhã, qual era o título do último post que irias escrever no blog?

 

Obrigada pela amabilidade que tiveram em seguir-me

 

Tens [ou já tiveste] alguma celebridade que consideres como o teu ídolo?

 

Não sou dada a ídolos embora haja muita gente que admiro por diversas razões. Mas de todas, e não sendo uma celebridade, o meu pai é o meu ídolo.

 

Uma saída com amigos: discoteca até de madrugada ou jantar e ficam todos em casa a conversar?

 

Não gosto nada de discotecas. Odeio música estridente, gente aos berros, fumo. Nada melhor do que estar em casa, à volta de uma mesa, falando tranquilamente com quem gostamos.  

 

 Qual foi a frase que alguém alguma vez te disse e que nunca esqueceste [não precisa de ser profunda, há frases que simplesmente nos ficam na cabeça]?

 

A vida é para seguir em frente, nunca desistindo dos nossos sonhos.

 

Quando estás no carro ouves rádio ou escolhes a música que queres ouvir?

 

É conforme a disposição. Por vezes música escolhida, por vezes o rádio.

 

Se pudesses voltar atrás no tempo e dizer alguma coisa que ficou por dizer [porque só te lembraste depois, é o que acontece sempre], o que dirias?

 

Por mais que nos esforcemos fica sempre qualquer coisa por dizer. Mas não tenho arrependimentos, penso que vou cumprindo a minha missão em relação aos outros.

 

Obrigado pelo convite, Joana! E agora, como tenho que passar a batata quente a alguém, vou escolher a Loulou para responder a este desafio.

 

Zezito e Mirita

Apresento-vos o Zezito e a Mirita, assim baptizados por mim quando era criança. Gostava do ar sorridente e das bochechas rechonchudas e coradas que lhes acentuava o aspecto simpático. Ambos viveram durante muitos e muitos anos nas cozinhas da minha mãe.

 

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Ponto, para tudo!


Desconfio que a minha afirmação anterior “cozinhas da minha mãe” deve ter provocado alguma perplexidade no meu vasto círculo de leitores, e até vislumbro algumas rugas nas vossas testas. Mas vamos lá esclarecer as dúvidas:


- Refiro-me a cozinhas, no plural, porque, tendo em conta a profissão do meu pai, percorremos o país de lés a lés. Por essa razão, foram bastantes as casas onde vivemos e, consequentemente, as cozinhas que tivemos.  Em todas elas o Zezito e a Mirita surgiam pendurados numa das paredes, convidando-nos a entrar, com o mais simpático dos sorrisos.


- Afirmo que as cozinhas eram da minha mãe. Pois, concordo que seja uma expressão um tanto ou quanto sexista, mas não há dúvida que a cozinha era o domínio da minha mãe, onde ela era rainha e senhora. O meu pai, senhor de outros tempos, nem um ovo sabia estrelar e eu, já em miúda, deixava antever que aquela não era, de todo, a minha dependência preferida da casa.


Mas voltemos ao casalinho Zezito e Mirita. 

    
Quando os meus pais abandonaram a vida de saltimbancos (salvo seja), assentaram arraiais e passaram a viver em casa própria, a minha mãe achou que era altura de dispensar o Zezito e a Mirita e despediu-os por justa causa : já não se enquadravam na decoração. Nunca mais os vi e, confesso, esqueci-me até da sua existência.

 

Acontece que há pouco tempo, nestas minhas pesquisas proveitosas em casa da minha mãe, encontrei uma velha caixa de cartão esquecida nos confins de um armário. Puxo a caixa, retiro-lhe a tampa e que vejo eu? O Zezito e a Mirita a olharem para mim. Curiosamente continuavam bochechudos, rosados e sorridentes.


Achei que era altura de regressarem ao activo.


Comprei uma moldura branca, forrei o fundo com tecido cor de morango às pintinhas e colei o parzinho. E voltaram à cozinha. Neste caso à cozinha cá de casa, tendo um lugar de destaque no meu cantinho do café.

 

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Estou convencida que eles estão agora mais felizes por terem regressado à luz do dia.

 

É que há dias pareceu-me ver o Zezito a piscar-me o olho…


Ou seria impressão minha?

 

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Será que os Ojíbuas tinham razão?

Sinto uma atracção irresistível pelas gavetas e armários da minha mãe.


Abrir as gavetas das cómodas e as portas dos armários é um verdadeiro prazer para os sentidos.


A roupa, desde lençóis, lenços, toalhas de mesa, toalhas de banho, panos de cozinha, passando por roupa de vestir, tudo tem o seu sítio certo, milimetricamente arrumado, impecavelmente passado a ferro. Tudo muito direito, liso e macio.


O mesmo acontece com os mais variados objectos, passando por caixas e caixinhas de todos os tamanhos.

 

Para além do rigor da arrumação, então e o perfume que imana das cómodas e dos roupeiros? É de morrer de inveja! Embora eu use sabonetes iguais, saquinhos de alfazema colhida no mesmo local (o jardim da minha tia), as minhas gavetas não cheiram tão bem como as da minha mãe.


Não tenho outro remédio senão a resignação.


Mas o que é que as gavetas e armários da minha mãe têm a ver com os Ojíbuas? Têm tudo a ver. Ora vamos lá por partes.


Parte um: É que nos armários da minha mãe, dentro daquelas caixas e caixinhas há sempre tesourinhos a desvendar. Ao abri-las, parto para um mundo cheio de surpresas e potencialidades, qual criança à descoberta dos presentes escondidos, nas vésperas de Natal. Nessas caixas guardam-se sobras de bordado inglês, de galões com pompons, de galões com  franjinhas, de galões com flores, rendas amarelecidas pelo tempo, fitas de seda, bastidores. Amostras em crochet meticulosamente executadas pela minha mãe para futuras colchas ou toalhas, que a voracidade do tempo não permitiu concretizar.


Encontrar tudo isto foi quase como ganhar o euromilhões. Eu disse quase…


O que se pode criar com todo este manancial! Haja imaginação e tempo…!


Ora bem, é aqui que os Ojíbuas começam a aparecer.


Parte dois:  Mas quem são os Ojíbuas, perguntam.  


Os Ojíbuas eram um povo indígena da América do Norte. Tal como qualquer povo indígena, tinham uma forte ligação à natureza e à espiritualidade. Eles acreditavam que ao cair da noite o ar se enchia de sonhos. Uns eram bons outros maus. Então, achavam necessário separar os sonhos bons, portadores das boas energias dos sonhos maus, carregados de energias negativas.


Como é que os Ojíbuas faziam essa separação?


Construíam os filtros dos sonhos, também conhecidos pelos nomes de apanhadores de sonhos, caça sonhos ou ainda espanta pesadelos que tinham como função a captação das energias positivas, permitindo bons sonhos e dissipando os sonhos maus, os pesadelos, as energias maléficas. Construíam-nos com aros de salgueiro, revestiam-nos com tiras couro. A este aro ligavam vários fios que formavam uma espécie de teia de aranha. Penduravam outros fios nos quais enfiavam pequenas contas, e juntavam-lhes penas ou outros objectos a que atribuíssem algum significado.


Parte três: Presentemente os caça sonhos em versão contemporânea estão na moda. Encontram-se à venda em lojas, feiras de artesanato, encontramo-los em revistas de crochet, na internet.


Acho-os lindíssimos.


Parte quatro: E então… vou às caixas da minha mãe, olho todos aqueles tesouros e vou retirando bastidores, rosetas, fitas de seda, rendas e até um colar velho e algumas pérolas de um colar partido.

 

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Acrescentei algumas pedras que tinha cá em casa, uma chave velha da casa dos meus avós, um berlicoque de um fio.


Fiz três caça sonhos. Um para mim, outro para a minha filha e um terceiro para oferecer a uma amiga e do qual não tenho foto.


Não sei bem se os três caça sonhos estarão a cumprir a função para a qual os Ojíbuas os criaram. Pela parte que me toca, por vezes ainda tenho alguns pesadelos. Mas pelo menos cumprem a missão para a qual eu os concebi – embelezam a casa.

 

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Um saco super chique versus uma alcofa proletária

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Há uns três anos comprei uma alcofa. Simples, Sem quaisquer enfeites, limpinha. E barata. A finalidade era personalizá-la à minha maneira.


Fui buscar a caixa dos novelos de linhas de crochet, escolhi cores diversas, e fui fazendo rosetas ao sabor da inspiração do momento. A minha mãe deu uma ajuda.


Por fim, aplico as rosetas na alcofa, compro um galão com pompons e ficou pronta. Peça única.


Poucos dias depois fui de férias e a alcofa acompanhou-me. Com a toalha de praia, o protector solar e um livro para ler. De manhã ia para a praia, ao fim da tarde para a piscina do hotel. Ora aí, alapava sempre ao nosso lado a mesma  família – pai,  mãe e menina .


Tinham pronúncia do norte.


Ele, sempre agarrado ao telemóvel e aos negócios. Presumo que era empreiteiro, pelas conversas que ia ouvindo. Peço desculpa, não fiz de propósito, não tenho o hábito de escutar conversas alheias mas o homem falava alto.


Ela, toda finaça, toda marcas chiques, patenteando bem o alto estatuto a que pertenciam.


Ele, alheado de tudo o que se passava à sua volta. Os afazeres profissionais não o deixavam usufruir do sol, da água, da espreguiçadeira, das férias.


Ela, sempre a olhar para mim… Sim sempre a olhar para mim.


Sim, eu sei o que estão a pensar. “Se sabes que ela olhava para ti é porque tu também olhavas para ela!”… Pois… mas não era exactamente a mesma coisa… Ela olhava ostensivamente, directamente, descaradamente… enquanto eu olhava disfarçadamente… dissimuladamente, como quem não quer a coisa. Punha os óculos de sol do meu marido, fingia que lia e olhava pelo canto do olho. Qual agente secreto em acção!


É que eu estava intrigada, mesmo muito intrigada! Que interesse teria eu para aquela senhora?  


Quando queria chamar a minha atenção, porque me via mais entusiasmada com o livro que estava a ler e mais alheada do mundo à minha volta, a senhora tilintava as inúmeras pulseiras que trazia no pulso. Eu levantava a cabeça e uma vez captado o meu olhar, a senhora mexia e remexia ostensivamente no seu grande saco Louis Vuitton. Normalmente, nem tirava nem punha nada lá dentro. Só mexia no saco.   


Do alto da sua imponência lançava-me um olhar altivo e um sorrisinho sobranceiro mal dissimulado.  


Olhei-a mais atentamente. Afinal, o olhar da senhora não se centrava única e exclusivamente na minha pessoa. Ia oscilando de minha pessoa para a minha alcofa das rosetas.


Então fez-se luz!


A senhora estava incrédula que houvesse alguém, tão pelintra e com tão mau gosto que  usasse uma alcofa de palha com rosetas em crochet do tempo das nossas avós! Como é que eu ousava pisar o mesmo espaço se vivíamos em galáxias tão distantes? Enfim, eu era quase um extra-terrestre.

 
Todos os fins de tarde se foram passando assim, iguais, repetindo-se a cena ao longo da semana.  E cada uma ficou na sua. Ambas felizes e contentes com aquilo que somos e temos. Ela feliz e contente com o seu sofisticado saco, eu feliz e contente com a minha alcofa “made by Graça”.


Confesso que foram os fins de tarde à beira da piscina que até hoje mais me divertiram.


Acreditem, quem estivesse de lado a observar-nos fartar-se-ia de rir. Acho até que daria um filma cómico. Mudo!

 

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