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Um ar de sua Graça

O primeiro brinquedo da minha mãe

Actualmente estão na ordem do dia as discussões mais ou menos acaloradas sobre se deve haver brinquedos para meninas e brinquedos para meninos, livros específicos para um género ou para outro, se as meninas devem vestir de cor-de-rosa e os meninos de azul.


Pois a minha mãe, há 91 anos, estava muito à frente. Porquê?

 

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Porque, pasme-se, este foi o seu primeiro brinquedo! Brinquedo para menina? Brinquedo para menino?


Uma coisa é certa! A ninguém restará dúvidas de que este é precisamente o brinquedo mais adequado para um bebé de poucos meses, seja menina ou menino!!!


Este cavalinho foi-lhe oferecido pelo Sr. Comendador. O Sr. Comendador era uma das pessoas mais ilustres da terra. O título com que foi agraciado assim o indica. Era senhor de muitos negócios, de muitos bens, de muita riqueza. Ora acontece que o Sr. Comendador precisava de se ausentar com muita frequência. Saía em negócios, para Lisboa e para o Brasil, saía em lazer para as termas ou para a Europa.  Durante a sua ausência era o meu avô António que lhe tratava dos seus muitos e variados assuntos burocráticos.


Quando regressava trazia sempre um presente para a minha mãe. Este foi o primeiro de muitos.


O brinquedo é feito em folha de Flandres e é de corda. E fez as delícias da minha mãe, que coitada, nunca teve ordem de lhe tocar. Era a mãe ou a avó que lhe davam corda e então… era vê-lo partir indomável, intrépido, endiabrado, em correria desenfreada, rodopiando velozmente, voltando para trás, empinando-se, não se sabendo ao certo se era o cavaleiro que conduzia o cavalo se era o cavalo que conduzia o cavaleiro.


Também eu, em criança me diverti com ele… mas a história repetiu-se. A minha mãe dava-lhe corda e eu assistia perfeitamente maravilhada às façanhas deste cavalito. Tocar-lhe? Nem me atrevia! Se estendia a mão para o agarrar, sentia o olhar da minha mãe sobre mim, semelhante a alfinetadas, e a mão retraia-se de imediato. O cavalo também desde logo chamou a atenção dos meus filhos. Começaram por espreitá-lo na vitrine onde a minha mãe muito ciosa daquela relíquia, ainda hoje o guarda. Quando pediam para pô-lo a cavalgar pelo chão da sala, eu nem me atrevia a fazê-lo. Não fosse eu estragar algo tão religiosamente protegido ao longo dos tempos. Eram, ora o meu pai, ora  a minha mãe a fazê-lo.


Porque, todos nós, de geração em geração, não tivemos ordem de lhe pôr a mão durante a infância, ele chegou aos nossos dias em bom estado.


Até que um dia, não há muito tempo, inexplicavelmente, a corda partiu-se e o cavalinho imobilizou-se para sempre.


Ainda hoje, quando fiz algumas perguntas à minha mãe sobre o seu primeiro brinquedo para escrever este post, vislumbrei uma expressão triste no seu olhar e desabafou:


-Tenho tanta pena que ele já não possa correr!  

 

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