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Um ar de sua Graça

O prazer de ler

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 Devo o gosto pela leitura ao meu pai e à Gulbenkian.  


Recordo a disponibilidade do meu pai para me ler histórias à noite, desde bem pequenina. Era um momento feliz. Só nosso. De grande cumplicidade entre ambos.


Morávamos em Pedrogão Grande. Tinha eu os meus quatro, cinco anos. À época não havia biblioteca pública nem livraria. Mas periodicamente surgia junto a capelinha de S. Sebastião a carrinha itinerante da Gulbenkian. O meu pai levava-me com ele. E requisitava livros para ele e para mim.


Aquela visita à carrinha cinzenta era uma festa. Adorava aquela casinha ambulante, toda forrada de livros por dentro, desde o chão até ao tecto. Um espaço pequenino mas tão bem aproveitado! Nunca tinha visto tantos livros juntos. E o cheiro? O cheiro dos livros misturado com o da madeira das estantes! E a simpatia dos dois senhores que traziam todo aquele mundo mágico até mim? Lembro-me particularmente de um deles, de cabelo e barbas brancas, bem velhinho. Pelo menos assim me parecia. Hoje interrogo-me se seria tão idoso como eu o recordo. Tratava-me com a bonomia de um avô.


E regressávamos a casa, o meu pai e eu, contentes com as aquisições que fizéramos e que nos iriam entreter durante alguns serões.


E, sentados lado a lado, o meu pai lia-me todas aquelas histórias que ainda hoje povoam o imaginário infantil.


E dizia-me que quando aprendesse a ler poderia ir sozinha requisitar os meus livros.


E assim foi.

 

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Mal consegui juntar as letras, obtive o meu primeiro cartão de leitora. Assinado com a minha ainda trémula e irregular assinatura. Achava-me a pessoa mais importante do mundo. Entrara no mundo dos crescidos.


Ir sozinha até ao largo onde a carrinha estacionava representava a liberdade, a autonomia. E um mundo onde não havia malfeitores, perseguidores de criancinhas, papões, perigos.Depois fomos viver para Odemira. Aí já existia uma biblioteca municipal. Pequenina e acolhedora. O responsável por ela era o senhor Manuel dos Reis, pai da minha amiga Luzinha.Íamos sempre em grupo, às sextas feira à tarde de quinze em quinze dias, se bem me recordo. As minhas amigas Isabel Flores, Ana Maria, Luzinha, Eduarda e eu.

 

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O senhor Manuel dos Reis tinha uma paciência infinita com este grupo de miúdas tagarelas, que mexiam e remexiam nos livros até se decidirem por aqueles que levariam para ler.  Com toda a afabilidade e simpatia orientava-nos, sempre que necessário, nas nossas escolhas. Era uma época em que lia compulsivamente. Até às escondidas dos meus pais, já de noite na cama, debaixo dos lençóis, quando eram horas de dormir e não de leituras.
Os meus livros preferidos do final da infância e pré-adolescência? As aventuras dos cinco de Enid Blyton, sem qualquer dúvida. Li toda a colecção. Não só li mas reli e reli e reli.


Com o Júlio, o David, a Ana, a Zé e o cão Tim eu sentia-me o sexto elemento do grupo. Com eles subi à torre mais alta do castelo da  Bela-Vista, tornei-me amiga da ciganita, transpus  amedrontada os tenebrosos portões da Casa do Mocho, percorri subterrâneos, trepei íngremes ravinas. Com eles persegui ladrões e contrabandistas, encontrei tesouros, resolvi os mais intrincados mistérios. Ah! E salivei com os deliciosos lanches preparados pela tia Clara.

 

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Tenho alguns destes livros que me foram oferecidos pelo meu pai. Quando os retiro da estante para lhes limpar o pó, revivo todas estas aventuras e é enorme o desejo de voltar a lê-los. Mas desisto e volto a colocá-los na estante.

 

É que não quero quebrar o encanto… 

 

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