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Um ar de sua Graça

A Alzira

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A Alzira era uma velha amiga da minha mãe. Conheciam-se desde crianças.

 

O pai era padeiro e, de menina, a Alzira começou a ajudar a família distribuindo o pão pelas mercearias da vila. Quando chegava junto da minha mãe pedia-lhe lápis e papel e, em meia dúzia de traços, satisfazia a sua urgente necessidade de criar. A minha mãe guardou alguns desses desenhos e lembro-me de, entre eles, do retrato que fez da Beatriz Costa. Estava tal e qual, feito assim de memória, mas com um traço original, único e inconfundível. A minha mãe guardou-os por muito tempo mas, inexplicavelmente, esses desenhos perderam-se nalguma limpeza mais profunda. Infelizmente.

 

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A Alzira casou e foi viver para Lisboa. Fazia trabalhos de costura.

 

Depois de enviuvar regressou à terra e foi então que a conheci. Apesar de apenas ter concluído a quarta classe era uma mulher culta, sensível, de mente aberta e à frente do seu tempo. E passei a admirá-la profundamente. Visitá-la era um prazer. Era um prazer conversar com ela e observá-la no seu espaço, criado à sua imagem e semelhança.

 

Gostava de levar comigo os meus filhos que aprenderam também a apreciá-la. Tinha sempre um miminho para eles, um fóssil, uma pequena pedra que lembrava um animal. E eles ficavam felizes.  

 

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A Alzira em tudo descobria beleza. Numa pequena pedra, num tronco retorcido, numa planta singela. Levava-os para casa e estes materiais tão simples transformavam-se em obras de arte. Como uma pedra que tinha no parapeito da janela. Colou-lhe um pequeno botão a fazer de olho e a pedra transformou-se num coelho pronto a saltar para o nosso colo.

 

E a casa da Alzira? Tão simples por fora como por dentro mas tão única! Única na concepção do espaço, nas peças antigas que a decoravam, nos quadros do filho, artista plástico, e nas peças criadas por ela.

 

 E as peças criadas pela Alzira? Com tecidos, agulhas, linhas, lãs, rendas e botões antigos, saíam peças inimagináveis. E que peças! Colchas, almofadas, bonecos, painéis… eu sei lá!

 

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Certa vez, para um concurso de montras decoradas com motivos de Natal, a Alzira fez um presépio absolutamente fabuloso com dezenas de peças. Um presépio em pano em que as personagens surgiam decoradas com rendas, bordados, missangas, pequeninos botões. Uma obra de arte. Estava tão lindo que a Câmara Municipal decidiu comprá-lo. O mesmo sucedeu com um casamento com perto de uma centena de figuras, desde noivos, padrinhos, menina das alianças e convidados, muitos convidados.

 

Pena é que ambos, presépio e casamento, não estejam expostos no Museu Municipal. Mereciam estar ao dispor de todos os que apreciam estas artes e seria uma justa homenagem a esta artesã da terra a quem a Câmara Municipal tanto gostava de recorrer quando pretendia presentear algum ilustre visitante. Espero bem que não tenham sido comidos pelas traças…   

 

A Alzira não precisava de revistas ou livros para se inspirar. Muito menos de internet, que ainda não estava acessível no seu tempo.

 

Certo dia perguntei-lhe onde ia buscar tanta inspiração. Respondeu-me:

 

-Olho ali para aquela parede branca e vejo lá tanta coisa!

 

Depois era só por mãos à obra…  

 

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A minha avó Clementina

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A minha avó Clementina teve uma vida longa. Nasceu quando reinava D. Carlos e quando faleceu eu já tinha 45 anos. Depois de ter faltado 2 dias para assistir ao seu funeral, uns alunos interpelaram-me incrédulos:


- Imagine que nos disseram que a professora foi ao funeral da sua avó! Mas não pode ser! Isso não é possível!


Respondi que sim, que era possível, que era verdade. Abriram-se bocas de espanto. Para miúdos de 11, 12 anos, uma pessoa de 45 está praticamente fossilizada, como é que podia ainda ter avó???!!! Continuavam a olhar-me desconfiados.


-Não pode trazer uma fotografia dela para nós vermos? – perguntou uma miúda mais espevitada.


E no dia seguinte, para que as dúvidas se dissipassem, levei uma foto onde ambas posávamos, a minha avó de olhos sorridentes e expressão prazenteira. Só assim se convenceram.


Foi então que lancei mais uma acha para a fogueira ao informá-los que tinha ainda outra avó, mas esta, graças a Deus, estava viva e benzinho de saúde. Ainda se abriram algumas bocas, ouviram-se alguns “ahs” de surpresa mas já ninguém ousou manifestar-se. Perceberam que daqui tudo se podia esperar!


A minha avó Clementina era a mais nova de quatro irmãos. Os três mais velhos nunca frequentaram a escola. Mas a minha avó tanto suplicou, tanto implorou que lá a deixaram ir fazer a instrução primária que, naquela época, primeiros anos da 1ª República , era de três anos.


Sempre a ouvi falar daqueles três anos como o que de mais maravilhoso lhe acontecera. E os livros por onde aprendeu a ler, a escrever e a contar foram sempre por ela guardados como se de algo sagrado se tratasse. E ainda existem religiosamente acautelados por nós. Como é de calcular, numa época em que a taxa de analfabetismo em Portugal era elevadíssima, a maioria das amigas da minha avó não sabia ler nem escrever. Muitas delas tinham filhos emigrados. Como saber notícias deles?


Uma amiga lembrou-se de pedir à minha avó que lhe lesse as cartas recebidas e lhes desse resposta. E atrás desta amiga outras vieram. Em certos dias a casa parecia um escritório de “import e export”. E eu, miúda, observava com curiosidade. A leitura das cartas, as novidades, a lágrima ao canto do olho pela saudade, os risos pelas traquinices dos netos que mal se conheciam. Depois, era ditada a carta de resposta que a minha avó escrevia meticulosamente com a sua caligrafia miudinha e perfeita. E a minha avó tornou-se, assim, a fiel depositária de alegrias, tristezas, confidências, segredos, vividos por ela com a mesma intensidade como se da sua família se tratasse.


Mas não era só a sua caligrafia que era perfeita.


Onde punha as mãos tudo saia bem. Como nunca viveu na abundância habituou-se a poupar e tudo aproveitar. Nas mãos dela o lixo tornava-se luxo, como hoje se costuma dizer. Dos sacos da farinha fazia guardanapos e panos da loiça.


De tecidos velhos e sobras de lã fazia tapetes bordados usando formas mandadas fazer no latoeiro, nos tamanhos pretendidos.

 

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Presentemente, como já não temos um latoeiro ao virar da esquina, podemos fazer os moldes em cartão, tal como eu fiz, para um tapete que estou a tentar bordar. Na foto poderão ver a técnica usada.

 

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Com sobras de tecidos e linhas de bordar fazia estas almofadas. Ela recortava, caseava, inventava os desenhos e bordava-os. Acho-as adoráveis, tanto mais que me lembro da minha avó a bordá-las com ar entusiasmado e concentrado, com a língua ao canto da boca como fazem as crianças quando estão entretidas a desenhar.

 

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Umas almofadas muito, muito velhinhas

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Muito recentemente a minha mãe fez 91 anos. Há poucos meses deixou de fazer crochet. Os olhos atraiçoam-na e os dias tornaram-se mais monótonos. Mas continua interessada por aquilo que vou fazendo, tem curiosidade em saber e em aprender e, sobretudo, esclarece as minhas dúvidas.

 

Também já não cozinha há bastante tempo. Custa-lhe estar de pé. Mas interessa-se por programas de culinária. Quando me apanha lá em casa informa-me logo que acabou de ver uma receita mesmo boa para eu fazer. E explica-me tudo tim tim por tim tim.


Dias depois pergunta-me “ Então a receita, já a experimentaste? Gostaram?


Mas qual receita??? Não faço a menor ideia!


A cabecinha da minha mãe funciona a 100% e irrita-se comigo porque sou uma cabeça no ar. E dá-me reprimendas como quando eu tinha 10 anos. E eu, menina obediente e temerosa, ouço, acato e… tenho que lhe dar razão. E sou eu que lhe peço para me lembrar das coisas que tenho para fazer…


Tudo isto para recordar o que por aqui já deixei escrito. A minha mãe é perfeita!


Já aqui fui partilhando no blog alguns dos seus trabalhos mais simples. Os mais complexos, trabalhosos e belíssimos tais como lençóis, toalhas, colchas ainda aguardam nas gavetas perfumadas o dia em que serão fotografados pelo “meu” fotógrafo oficial.


Mas estas habilidades nasceram com ela. Recorde-se o primeiro post deste blog.


Como os mais antigos devem saber e os mais jovens se não sabiam ficam agora informados,  há muitas, muitas décadas, os lavores faziam parte dos curricula do ensino primário. Para as meninas, bem entendido. Nos anos 30 era inconcebível um rapaz de agulha e linha na mão e dedal no dedo!   Mesmo agora sabe Deus, mas adiante. Isso daria para outra conversa.


Na escola primária a minha mãe fez inúmeros trabalhos e alguns deles resistiram à passagem do tempo. Sobreviveram. Alias, na casa dos meus avós e dos meus pais tudo era muito estimado, pois tudo custou a ganhar, tudo foi obtido com trabalho e sacrifício. E foi esse o princípio em que fui criada. Talvez por essa razão aprecie tanto o que é antigo. Carrega memórias e história. 

   
E é assim que cerca de 80 anos depois de terem sido feitas, estas almofadas bordadas pela minha mãe na escola primária, ainda continuam a fazer vista.


Ora digam-me lá, alguma menina de dez anos, nos dias de hoje bordaria assim?  


E como poderia ocupar o tempo uma criança dos anos trinta, sem televisão sem rádio, sem telemóvel, sem internet? Lia… bordava…

 

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Nada que o crochet não resolva

Era Inverno e fazia frio. Saí de casa com um blaser verde garrafa e um cachecol novinho, a estrear. Cor de laranja.


Gostei da combinação das cores contrastantes. E sentia-me toda contente com esta minha nova aquisição.


Quando cheguei a casa a recepção do costume. A Leila, a nossa cadela, festejou a minha chegada. Correu, rodopiou, foi buscar o brinquedo de estimação e saltou, saltou, saltou para cima de mim.  Haja quem fique feliz com a minha chegada e se manifeste tão exuberantemente. Ninguém, como os nossos animais de estimação, nos faz  sentir tão especiais e únicos. Podemos ausentarmo-nos dez minutos, dez dias ou dez semanas que     a recepção é sempre celebrada com a mesma alegria esfusiante.


Só que desta vez, os festejos não correram lá muito bem. Num dos saltos acrobáticos a Leila ficou com uma unha presa no meu cachecol novinho em folha.


E conseguir tirar a unha da malha? Foi o cabo dos trabalhos. Quanto mais a Leila se debatia para se libertar, mais presa ficava a unha na malha ou a malha mais se prendia à unha. Nem sei qual das duas situações seria mais exacta. O que sei é que cada vez eram   maiores os puxões. Temi o pior! Era o fim do meu rico cachecol!

 

Depois de muitos esforços lá  consegui desenfiar a unha. Mas o cachecol, coitado parecia um passador, com uma série de buracos de diversos tamanhos. Fiquei inconsolável.
Como disfarçar os estragos? Aconselhei-me com a minha mãe. As mães encontram sempre soluções para tudo.


-Traz cá o cachecol. Vamos lá ver o que consigo fazer!


E o dito lá viajou para a casa da minha mãe. Dias depois disse-me que estava pronto.


E o resultado aqui está. Quando voltei a usá-lo, foi um sucesso. Muitas amigas me perguntaram onde o tinha comprado. Queriam um igual     

 

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Vestir a casa com as cores de Outono

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Gosto do Outono. Bastante. No entanto, nem sempre foi assim.


Quando era menina e moça, o Outono era a estação do ano de que menos gostava. Por tudo aquilo que simbolizava. O Outono era o tempo de todas as finalizações, o fim de tudo aquilo que me fazia feliz. Das férias grandes, dos dias quentes e infindáveis, da ausência de compromissos, do tempo sem relógio.


Com o Outono, o retomar das rotinas, dos horários a cumprir, das corridas diárias, das obrigações, das noites longas sem fim, provocavam-me uma certa nostalgia.
Com o decorrer do tempo, e o avançar da idade, aprendi a saborear o Outono, a apreciá-lo na sua essência.


Gosto do Outono. Bastante.


Aprecio as cores. Os verdes desmaiados das folhas de algumas árvores que tão bem combinam com os tons secos e amarelados de outras. Gosto das folhas dos plátanos que se desprendem dos ramos, amarelecidas e avermelhadas. Assistir ao seu bailado ao sabor do vento, em remoinho, para depois serenarem atapetando o chão.


E os cheiros? Que bálsamo para a alma.


O cheiro a castanhas assadas, o cheiro a terra molhada, o cheiro das plantas orvalhadas, o cheiro da lenha a arder nas lareiras.


Gosto do Outono. Bastante.


Das manhãs enevoadas, das tardes de chuviscos, da frescura dos dias, das noites intermináveis.


Gosto do Outono. Bastante.


Por tudo isto resolvi trazê-lo para dentro de casa e vesti-a com as suas cores.


Comprei uma tela, fui buscar o cesto dos novelos e escolhi as cores que me lembram esta estação. Fui crochetando flores, folhas, troncos, bolotas  e um  vaso.
Depois… colei.


Sou eu e o MacGyver… Ele com o canivete e eu com o tubo de cola somos verdadeiramente imbatíveis…


Há quinze dias que está pendurado no corredor. Por um tempo limitado. É que, não tarda nada, está aí o Natal e outro quadro ocuparará o seu lugar.

 

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Nota: Esta descrição do Outono não passa, infelizmente, de pura ficção. O Outono tem andado por outras paragens, não por aqui. O Verão teimou em ficar, quente, abrasador, destruidor, mortífero. E um país vai desaparecendo aos poucos.   

Sua excelência a cozinha

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A cozinha, de novo. A cozinha como coração da casa. Como ponto de encontro. Local de conversas, risos, histórias de família e até local de tomada de decisões importantes.

 

 A Cozinha da minha infância é um pouco de tudo isto. 

 

Eram assim as cozinhas dos meus avós, tios, primos. Quentes, aconchegantes, com grandes lareiras onde o lume crepitava e as chamas se destacavam nas paredes pretas de fuligem. Pequenos pontes de luz que se libertavam chaminé acima, lembrando pirilampos. Panelas de ferro fumegantes.

 

Cheirinho a comida boa. Envolvente. E todos nós ali sentados em redor do lume, reconfortados, dentro da grande chaminé.

 

 Eu a queimar a ponta de uma pequena cavaca e a minha avó a repreender-me:

 

-Não faças isso! Quem brinca com o fogo faz xixi na cama.  

 

E eu a acreditar. As avós nunca mentem. E parava. Não queria molhar a cama.

 

Depois vinham as histórias de lobisomens que a minha avó Clementina contava convictamente, como ninguém.

 

 A sua voz mudava, com pausas e entoações, quando contava pormenorizadamente histórias como a do homem que virou lobo à meia-noite e que, atacando um cavaleiro este feriu o lobo na focinho. No dia seguinte o homem que na noite anterior atacara cavalo e cavaleiro ostentava um grande ferimento na face.

 

O melhor destas histórias, é que os protagonistas eram todos conhecidos, tudo gente da terra, o que emprestava a todas estas narrações uma total veracidade, envolvimento e proximidade.

 

E eu ficava de tal forma dividida entre o fascínio e o terror que de noite não conseguia dormir.

 

Mas na noite seguinte pedia outra. E a minha avó lá começava a contar…

 

As cozinhas de hoje em nada se parecem com as da minha infância. São mais assépticas e luminosas do que as de antigamente. Poderão ter outro conforto e funcionalidade.

 

Mas procuro que a minha, embora tão mas tão diferente, continue a ser o coração da casa, ponto de encontro, local de aconchego, de partilha, não só de refeições mas de conversas e de histórias.

 

E nada melhor do que fazê-lo em redor de uma fumegante chávena de chá, sobre as toalhas com rendas feitas pela minha mãe.

 

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Os panos da loiça da minha mãe

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Querida mãe

 

Vá lá, mãezinha, então? Não fique triste! Lá porque falei sobre os panos da loiça da avó, pensa que me esqueci dos seus? Que os seus panos da loiça estão em segundo plano na minha vida?

 

Como seria eu capaz de uma desfeita dessas?

 

Como seria isso possível se os panos da loiça feitos por si, ou seja, com rendas “crochetadas” por si, esvoaçam diariamente na minha cozinha e lhe conferem uma nota de cor e de alegria?

 

E se muitos mais panos, novinhos, ainda por estrear, aguardam na gaveta da cozinha o momento de verem a luz do dia?

 

Como poderia deixar cair no esquecimento os panos da loiça e panos de mãos a condizer feitos pela mãezinha que é conhecida pela rainha dos picôs?

 

Ei-los! Aqui estão eles, para a posteridade, a serem partilhados na blogosfera, pelo mundo inteiro, para que todos possam apreciar as suas mãos de fada.

 

Muito obrigada pelo carinho que colocou ao fazê-los assim como em tudo aquilo que sai das suas mãos.

 

A sua filha que gosta muito de si

 

Graça

 

PS: Quem é amiguinha, quem é?

 

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Os panos da loiça da minha avó

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Já por aqui deixei bem claro que gosto de rendas, rendinhas, bordados.

 

Peças elaboradas ou muito simples. Todas têm o seu encanto, em todas elas encontro beleza.

 

Gosto de espalhar essas rendas e bordados pela casa. É kitch? Talvez. Mas gosto de me rodear de objectos e peças feitos à mão, feitos com carinho, feitos especificamente para este ou para aquele espaço. Feitos por mim ou por familiares. E que tornam a casa um local especial e único. E a transformam num lar.

 

A minha cozinha não foge à regra.

 

Panos da loiça sem uma rendinha ou sem um pequeno bordado, não são panos da loiça que valham a pena.

 

Todos os que tenho a uso ou ainda por usar têm um picot feito pelas mãos de fada da minha mãe.

 

E há os da minha avó. Esses são especiais. 

 

A minha avó Clementina fê-los quando eu estava para casar. Mulher prática e despachada, oferecia-me o que era utilitário, sem quaisquer sofisticações.

 

O tecido tinha-o lá por casa. Cortou-o. Fez-lhe as bainhas na sua máquina Singer. Em cada pano desenhou um motivo e bordou-o. Por fim fez o picot. E fiquei com meia dúzia de panos da loiça, todos eles diferentes. Todos originais.  

 

E eu que sou rapariga para usar tudo, que não gosto de baús cheios de inutilidades, nunca consegui pôr estes a uso.

 

Tentei várias vezes mas não sou mesmo capaz.

 

Cada um que usasse e que se viesse a estragar era como um pouco da minha avó que se perdesse.

 

Assim, gosto de, por vezes, abrir a gaveta e tirá-los de lá. Enquanto os contemplo é como se a minha avó estivesse ali ao pé de mim.

 

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Duas echarpes separadas pelo tempo

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Com treze anos comprei o meu primeiro lenço. Depois deste outros se seguiram. Era muito friorenta, constipava-me facilmente, a garganta inflamava e sabia-me bem o aconchego de um lenço em redor do pescoço.

 

A seguir descubro as echarpes. E vou sempre comprando. Ora um lenço, ora uma echarpe…

 

E ao longo dos anos as gavetas e cabides vão-se enchendo de lenços e echarpes. Muitos, muitos, comprados por mim, outros oferecidos por familiares e amigos que conhecem esta minha paixão (mais uma!)


Gosto de ambos, lenços e echarpes pela utilidade que neles encontro mas também como acessório. São mesmo os meus acessórios predilectos. Prefiro-os aos colares, por exemplo.   

 
E aqui sou diferente do comum dos mortais. Ao contrário do que é habitual – escolher primeiramente a roupa que se vai vestir e, em seguida, procurar-se um lenço ou echarpe que se harmonize – eu começo por escolher o lenço. Ou a echarpe. Só depois é que abro o roupeiro e decido o que vestir em função do acessório escolhido.  

 

E a pouco e pouco, sem o ter premeditado, apercebo-me que, tal como colecciono postais românticos, também colecciono echarpes e lenços de pescoço.
Quando uma amiga me chamou a Imelba Marcos dos lenços fiquei de sobrolho carregado!!! Ora esta, não querem lá ver?!

 

Entre nós as duas há todo um universo de diferenças! Ora repare-se.

 

 A senhora, ou seja a Imelba, foi a primeira dama da Filipinas. Eu apenas sou a primeira dama cá de casa.  

 

A senhora, ou seja a Imelba, coleccionava sapatos. Eu apenas colecciono lenços e echarpes.

 

A senhora, ou seja a Imelba, tinha sapatos aos milhares. Fala-se em mais de três mil pares! Os meus lenços e echarpes não devem chegar à centena.

 

A senhora, ou seja a Imelba, tinha sapatos caríssimos. Os meus lenços e echarpes são baratinhos…

 


E, segundo consta, os sapatos da senhora, ou seja da Imelba, tiveram um triste fim, cobertos de bolor e carunchosos. Os meus lenços e echarpes continuam, todos eles de perfeita saúde, bonitinhos e perfumados. E ainda preservo o primeiro lenço dos meus treze anos.


De todas as echarpes, apenas duas são feitas por mim. A primeira fi-la aos dezassete anos. A segunda terminei-a há uns dois, três dias.

 

Décadas separam uma  da outra.

 

Ao finalizar esta última, penso escrever um post sobre elas e é então que, com surpresa,  constato que, embora usando técnicas deferentes, ou seja, a primeira em crochet e a última em tricot, elas são em tudo o mais muito semelhantes, apesar de haver  taaaaannnnntos anos a separá-las.

 
A mesma cor, amarela. E minha cor preferida. Desde sempre.

 

Ambas com uma barra mais fechada. Na primeira em cordão. Na segunda em liga.

 

Ambas com uma barra aberta. Na mais antiga, com anéis que fiz enrolando o fio ao dedo. Na mais recente, usando o ponto de carreiras abertas.

 

Que posso concluir?    

 

Várias décadas se passaram mas as mudanças em mim não foram tantas como eu própria poderia imaginar. Os mesmos gostos, os mesmos interesses continuam presentes.


Enfim, sou mesma Graça de sempre.

 

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Já não se escrevem postais de amor como antigamente – Parte III

 Palavra de ordem: Decorar, Decorar

 

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Postais românticos bem organizados. Arrumadinhos. Escondidos em micas. Micas escondidas em dossiês. Dossiês escondidos em gavetas. Ignorados durante meses e meses.


Chegam as saudades.


Abro gavetas, tiro dossiês, folheio as micas, retiro um ou outro postal da respectiva  bolsa, observo-o ao detalhe, contemplo-o com calma descobrindo sempre um pormenor novo em que não reparara antes. E tempo para me sentar no sofá para estes momentos anti- stress de que tanto gosto?


Costumo dizer que já não trabalho por falta tempo, menos ainda para estas actividades contemplativas!


Mas encontrei a solução. Bem simples. Espalhando-os pela casa, integrando-os na decoração.


Uns, em quadros, decoram o corredor.

 

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Depois lembrei-me da moldura antiga da minha sogra. É metálica, pesada. Sempre gostei do trabalhado dela mas precisava de um toque mais moderno e alegre. Pintei-a de branco e gostei do resultado. Em vez de fotografia coloquei-lhe um postal. Neste momento ostenta um dos que mais gosto. Quando me cansar troco-o por outro.
Mais recentemente ocorreu-me outra ideia que rapidamente pus em prática.


Comprei uma tela. Forrei-a com tecido. Fiz uma prospecção pelas “caixas dos tesouros da minha mãe” e escolhi rendas, galões, fitas. Acrescentei umas chaves velhas, muito velhas da casa da minha avó. Escolhi um postal e apliquei-o. Com a particularidade de este não estar colado. Apenas preso pelas rendas e facilmente substituído por outro, quando deste me cansar.


Deste modo, aqui estão eles sempre, sempre à beira de um olhar.

 

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