Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Um ar de sua Graça

Lá vai uma, lá vão duas, três girafas a saltitar

IMG_6345.jpg

 

Foi quando passeava por uma rua de Chaves que a minha mãe viu numa montra um tecido que lhe chamou a atenção. Aproximou-se para ver melhor. Era de lã, azul-escuro, com girafas bordadas à máquina. Ficou rendida. E decidiu entrar. A dona da loja explicou-lhe que o tecido tinha sido bordado por ela e que só bordava poucos metros de cada peça. Porque dava muito trabalho, para não haver repetições e que variava os motivos de tecido para tecido. Mostrou-lhe outros que bordara, com motivos diferentes mas as girafas enfeitiçaram a minha mãe. Foi amor à primeira vista. E comprou o suficiente para me fazer uma saia de corpo. Por saia de corpo entenda-se uma saia com alças e peitilho.


Chamou a menina Quitas para me fazer a saia. A menina Quitas era uma costureira que vinha trabalhar a casa das clientes E foi muita a roupa que tive costurada por ela.
Também a menina Quitas se rendeu às girafas. Ficou encantada com elas e era grande o seu receio de cometer algum deslize na execução da saia. Algum ponto fora do sítio, ou pior a ainda, sem remédio, decapitar alguma girafa com a tesoura afiada.


Um dia apareceu lá em casa com olheiras, queixando-se:


- Sabem lá! Dormi tão mal! Só pesadelos! E o pesadelo foi sempre o mesmo a noite toda, sonhei que as girafas tinham fugido da saia. Passei a noite a correr atrás delas para as apanhar.  


Mas a saia concluiu-se sem sobressaltos. Sempre com as girafas bem alinhadas e bem comportadas na roda da saia. Naquele tempo a roupa era feita para durar e durar e durar. Com largas costuras e grandes bainhas. E a saia das girafas não fugiu à regra. Eu crescia e a saia foi crescendo comigo. As costuras iam-se alargando e a bainha ia descendo. Teria no máximo os meus quatro anos quando a saia ficou pronta e com dez já a caminho dos onze anos ainda a vestia. A data no verso da fotografia não deixa dúvidas.

 

IMG_6343.jpg

 

Quando a minha filha tinha os seus três, quatro anos, a saia das girafas saiu da arca onde se guardara e voltou à luz da ribalta. Desta vez seguiu-se o caminho inverso. Apertaram-se as costuras, subiu-se a bainha. E foram vários os invernos em que ela a vestiu. Depois… voltou à arca.


Teria a sua graça se a saia das girafas ainda viesse a vestir a terceira geração da família. Mas apressem-se filhos… antes que as girafas sejam devoradas pelas traças.

 

0 (3) (2).jpg

 

O prazer de ler

IMG_6246 (1).jpg

 

 Devo o gosto pela leitura ao meu pai e à Gulbenkian.  


Recordo a disponibilidade do meu pai para me ler histórias à noite, desde bem pequenina. Era um momento feliz. Só nosso. De grande cumplicidade entre ambos.


Morávamos em Pedrogão Grande. Tinha eu os meus quatro, cinco anos. À época não havia biblioteca pública nem livraria. Mas periodicamente surgia junto a capelinha de S. Sebastião a carrinha itinerante da Gulbenkian. O meu pai levava-me com ele. E requisitava livros para ele e para mim.


Aquela visita à carrinha cinzenta era uma festa. Adorava aquela casinha ambulante, toda forrada de livros por dentro, desde o chão até ao tecto. Um espaço pequenino mas tão bem aproveitado! Nunca tinha visto tantos livros juntos. E o cheiro? O cheiro dos livros misturado com o da madeira das estantes! E a simpatia dos dois senhores que traziam todo aquele mundo mágico até mim? Lembro-me particularmente de um deles, de cabelo e barbas brancas, bem velhinho. Pelo menos assim me parecia. Hoje interrogo-me se seria tão idoso como eu o recordo. Tratava-me com a bonomia de um avô.


E regressávamos a casa, o meu pai e eu, contentes com as aquisições que fizéramos e que nos iriam entreter durante alguns serões.


E, sentados lado a lado, o meu pai lia-me todas aquelas histórias que ainda hoje povoam o imaginário infantil.


E dizia-me que quando aprendesse a ler poderia ir sozinha requisitar os meus livros.


E assim foi.

 

IMG_6247.jpg

 
Mal consegui juntar as letras, obtive o meu primeiro cartão de leitora. Assinado com a minha ainda trémula e irregular assinatura. Achava-me a pessoa mais importante do mundo. Entrara no mundo dos crescidos.


Ir sozinha até ao largo onde a carrinha estacionava representava a liberdade, a autonomia. E um mundo onde não havia malfeitores, perseguidores de criancinhas, papões, perigos.Depois fomos viver para Odemira. Aí já existia uma biblioteca municipal. Pequenina e acolhedora. O responsável por ela era o senhor Manuel dos Reis, pai da minha amiga Luzinha.Íamos sempre em grupo, às sextas feira à tarde de quinze em quinze dias, se bem me recordo. As minhas amigas Isabel Flores, Ana Maria, Luzinha, Eduarda e eu.

 

IMG_6249.jpg


O senhor Manuel dos Reis tinha uma paciência infinita com este grupo de miúdas tagarelas, que mexiam e remexiam nos livros até se decidirem por aqueles que levariam para ler.  Com toda a afabilidade e simpatia orientava-nos, sempre que necessário, nas nossas escolhas. Era uma época em que lia compulsivamente. Até às escondidas dos meus pais, já de noite na cama, debaixo dos lençóis, quando eram horas de dormir e não de leituras.
Os meus livros preferidos do final da infância e pré-adolescência? As aventuras dos cinco de Enid Blyton, sem qualquer dúvida. Li toda a colecção. Não só li mas reli e reli e reli.


Com o Júlio, o David, a Ana, a Zé e o cão Tim eu sentia-me o sexto elemento do grupo. Com eles subi à torre mais alta do castelo da  Bela-Vista, tornei-me amiga da ciganita, transpus  amedrontada os tenebrosos portões da Casa do Mocho, percorri subterrâneos, trepei íngremes ravinas. Com eles persegui ladrões e contrabandistas, encontrei tesouros, resolvi os mais intrincados mistérios. Ah! E salivei com os deliciosos lanches preparados pela tia Clara.

 

IMG_6251.jpg

 


Tenho alguns destes livros que me foram oferecidos pelo meu pai. Quando os retiro da estante para lhes limpar o pó, revivo todas estas aventuras e é enorme o desejo de voltar a lê-los. Mas desisto e volto a colocá-los na estante.

 

É que não quero quebrar o encanto… 

 

IMG_6254.jpg

 

Um post politicamente incorrecto

IMG_6220.jpg

 

Nada de confusões! Não venho falar de política embora o título possa induzir em erro. Mas…

 

Pouco depois do 25 de Abril, sim refiro-me à revolução, muito boa gentinha procurava parecer o que não era. Se até aí tinham hábitos a que os revolucionários apelidavam de “burgueses”, como jantar em bons restaurantes, vestir roupa cara, usar belas jóias, procuraram disfarçadamente passar uma borracha sobre esse passado “comprometedor”.

 

Não querendo que lhes chamassem os nomes feios que na altura, a torto e a direito, se ouviam nas ruas, todos queriam ser, ou parecer do povo. Os homens abandonaram a camisa branca, a gravata, deixaram crescer o cabelo, a barba, o bigode. Um ar de desleixo caía bem. As senhoras guardaram as peles nos confins dos armários, esconderam as jóias, vestiram calças de ganga, camisas de flanela aos quadrados, compridonas, horrorosas e, pasme-se, calçavam socas com meias grossas!

 

Eu, que sempre gostei de me colocar à parte observando o comportamento humano, divertia-me imenso com  todas estas metamorfoses e  com este “antes” e “depois”. Ora acontece que, a dada altura, alguém se terá lembrado de sair à rua com um enorme xaile preto. Talvez numa imitação das velhinhas das aldeias que quando iam à missa ou à feira se embrulhavam em espessos xailes de lã.   E, de repente, virou moda. Era ver na rua, nos transportes, na faculdade jovens e senhoras de todas as idades embrulhadas nestes longos xailes de franjas compridas. Eram em croché, todos em abertos ou de abertos e fechados mas sem formarem qualquer desenho. Muito, muito simples.

 

Até lhes achei piada. Crochet era comigo! E decidi fazer um. Pareceu-me que seria uma boa ideia para usar nas madrugadas frias quando tinha aulas logo às 8 da manhã.Mas só de abertos ou de abertos e fechados sem formar qualquer desenhinho era demasiado simplista para a minha pessoa. E decidi dar-lhe um ar da minha graça. Pesquisei nas revistas “Para Ti” da minha mãe. E lá encontrei um esquema com uma barra de rosas e rosinhas mais pequenas no centro. Fi-lo em três tempos. Ficou engraçadinho.

 

Mal o acabei, lá vou eu bem enroladinha nele para a faculdade.

 

Então não é que me senti incomodada durante todo o dia? Como era demasiado grande tolhia-me os movimentos, o fio escolhido não era assim tão quente como imaginara e, acima de tudo, sentia-me como “ mais uma ovelha do rebanho”. Chegada a casa, o xaile foi parar a uma gaveta e nunca mais voltou a ver a rua… Lá ficou para sempre.

 

Ah! Minto! Foi usado uma vez pela minha filha, quando, na escola primária participou numa peça de teatro e desempenhava o papel de uma velhinha! Mas confesso, sempre gostei daquele motivo de rosas. Passei o esquema para papel quadriculado e iniciei há dias um novo xaile num fio bem mais fofo e quentinho.Espero vir a embrulhar-me nele nos serões de inverno a fazer crochet ou tricot…     

 

IMG_6226.jpg

 

 

 

Um casaco feito a quatro mãos

IMG_6131-Edit.jpg

 

Há muito, muito tempo quando eu era criancinha, as lojas de pronto a vestir infantil eram praticamente inexistentes. Meninos e meninas andavam mais ou menos bem vestidos, com mais ou menos bom gosto, consoante as possibilidades económicas da família ou a habilidade das mães. As famílias abastadas contratavam bordadeiras, tricotadeiras, costureiras, que bordavam, tricotavam, costuravam as roupinhas das crianças.


A minha mãe não precisava de recorrer a ninguém. Ela bordava, ela tricotava, ela costurava. No entanto, por norma, recorria a costureiras para confeccionarem os vestidos, saias, casacos. Mas os pormenores eram com ela. E eu, modéstia à parte, andava sempre muito bem vestidinha, usava peças exclusivas e únicas que saíam da imaginação e das mãos da minha mãe.


Está neste caso este casaco de malha. Foi tricotado quando eu tinha dois anos. A minha mãe pretendia bordá-lo mas não havia em revista alguma desenhos que a motivassem. Ou porque não se adequavam à temática infantil ou porque eram demasiado grandes para um casaco tão pequeno. Desabafou com o meu pai a sua desilusão.


-Se não há motivos que te agradem para o casaco, então desenho-os eu!


Convém acrescentar que o meu pai até tinha jeitinho para desenhar e gostava de fazê-lo. E assim foi. O meu pai muniu-se de lápis e papel, a minha mãe foi dando ideias e, numa harmoniosa parceria, os desenhos foram nascendo, e a composição ficou definida. Depois, a fase seguinte pertenceu à minha mãe. Escolheu as lãs, as cores, ensaiou os pontos. E bordou o casaco.

 

IMG_6142.jpg

IMG_6145.jpg

IMG_6146.jpg

 

Conta a minha mãe que o meu pai, ao contrário do que era habitual, desta vez seguia atentamente todo o processo de execução do bordado. Encantava-se vendo nascer os pintainhos, o barco a navegar nas águas tranquilas, as velas do moinho que pareciam girar ao sabor do vento, o menino e a menina que estavam prestes a saltitar ao encontro um do outro para brincarem juntos. Esta obra era também um bocadinho dele.


Quando me via com ele vestido enchia-se de orgulho pela co-autoria. Usei o casaco até já não caber nele. Depois foi cuidadosamente guardado pela minha mãe que o envolveu em papel de seda, dentro de uma antiga arca onde continua até aos dias de hoje.

 

Apesar de muito velhinho, gosto muitíssimo dele e sempre que o olho sinto uma vontade enorme de tricotar e bordar um casaco inspirado nele. Mas não tenho netos… Enfim… fazendo o casaco já não falta tudo…!

 

IMG_6143.jpg

 

O mais belo presente do mundo

7221531A-3045-41FF-A32F-F24CAA2B0F53.jpeg

63F4DD3F-1937-4472-B707-2C007BA1D895.jpeg

 

 

Tinha a minha mãe os seus cinco ou seis anos quando recebeu de presente uma boneca de porcelana. Foi-lhe oferecida pela avó que um dia veio a Lisboa e a comprou na Feira da Ladra. Ao abrir a caixa a minha mãe ficou extasiada. Nunca tinha visto uma boneca tão linda como aquela. Sentiu-se a menina mais afortunada do mundo. Nem o Sr. Comendador lhe oferecera um presente assim.

 

Imediatamente a boneca, dentro da sua caixa, foi guardada dentro de um baú e este fechado à chave. Um presente daqueles não era para andar pela casa aos tombos nem à mão pouco cautelosa de uma criança. Só de tempos a tempos a minha mãe tinha ordem de ver a sua adorada boneca. Quando a mãe estava disposta a tal. Então a mãe abria o baú, retirava a caixa e levantava a tampa. A minha mãe recebia a boneca, sempre dentro da caixa e presa por atilhos. E embalava-a docemente. E contemplava-lhe embevecida a beleza do rosto. Admirava as faces rosadas, os olhos imensamente azuis, pestanudos, que abriam e fechavam. Os lábios sorriam docemente mostrando uns dentes pequeninos e muito brancos. E que deliciosa aquela covinha no queixo! Os anos foram passando, a minha mãe crescendo, e a boneca, a pouco e pouco, foi sendo cada vez menos visitada.

 

Até que, certa vez, já adulta, a minha mãe resolveu matar saudades da sua querida boneca. Abriu o baú, retirou a caixa, levantou a tampa… E um grito de terror ecoou pela casa! Toda a gente ocorreu ao grito da minha mãe…

 

Olharam para dentro da caixa e ficaram horrorizados! A bela boneca de porcelana tinha sido assassinada!!! O cabelo natural soltara-se da cabeça. A boneca estava careca! Os braços arrancados, os pés decapitados! O chapéu e o vestido completamente esburacados. Ninguém conseguia acreditar no que via. Retirou-se a boneca da caixa. Por baixo dela, minúsculos bichinhos roedores corriam de um lado para o outro. Estavam descobertos os assassinos.

 

A boneca foi limpa, arejada, colocada numa nova caixa. E não voltou a ser a mesma. Quando a conheci era já neste estado que se encontrava. Muito tempo se passou. Um dia, passando na Praça da Figueira, em Lisboa, a minha mãe reparou num letreiro na fachada de um prédio “Hospital das Bonecas”. Uma campainha tilintou-lhe na cabeça. Entrou. Ao balcão estava uma senhora.

 

A minha mãe pergunta - Aqui arranjam bonecas? - Só vendo! - respondeu a senhora do balcão. -Aaaaaahhhhh! – foi o som decepcionado que minha mãe conseguiu emitir.

 

Agradeceu e veio embora. Pelo caminho até casa pensava intrigada “mas como é possível só venderem bonecas se aquilo é um hospital???”. Não se dando por vencida, algum tempo depois voltou a passar por ali e resolveu entrar de novo. A mesma senhora ao balcão.

 

E de novo a mesma pergunta da minha mãe: - Aqui arranjam bonecas?

E, invariavelmente, a mesma resposta da senhora do balcão: - Só vendo!

 

Desta vez a minha mãe não se calou e comentou intrigada: - Mas como é que só vendem bonecas? Se é um hospital é suposto que as consertem!

- Não, não é isso. O que eu quero dizer é que precisamos de VER a boneca para decidirmos se tem arranjo! Quando digo “só vendo” é VENDO do verbo VER!!!

 

Desta vez o “ Aaaaaahhhh!” emitido pela minha mãe tinha uma sonoridade bem diferente. E fartaram-se de rir as duas pelo equívoco. Pouco tempo depois a moribunda boneca de porcelana deu entrada no hospital das bonecas. Saiu de lá como nova, ressuscitada, mas desvirtuada da sua antiguidade. A minha mãe e eu sentimo-nos algo defraudadas com o resultado. Não apreciámos o cabelo, muito menos o vestido. Mas antes assim, vivinha, do que esburacada e morta.

 

O primeiro brinquedo da minha mãe

Actualmente estão na ordem do dia as discussões mais ou menos acaloradas sobre se deve haver brinquedos para meninas e brinquedos para meninos, livros específicos para um género ou para outro, se as meninas devem vestir de cor-de-rosa e os meninos de azul.


Pois a minha mãe, há 91 anos, estava muito à frente. Porquê?

 

IMG_5163.jpg

 

Porque, pasme-se, este foi o seu primeiro brinquedo! Brinquedo para menina? Brinquedo para menino?


Uma coisa é certa! A ninguém restará dúvidas de que este é precisamente o brinquedo mais adequado para um bebé de poucos meses, seja menina ou menino!!!


Este cavalinho foi-lhe oferecido pelo Sr. Comendador. O Sr. Comendador era uma das pessoas mais ilustres da terra. O título com que foi agraciado assim o indica. Era senhor de muitos negócios, de muitos bens, de muita riqueza. Ora acontece que o Sr. Comendador precisava de se ausentar com muita frequência. Saía em negócios, para Lisboa e para o Brasil, saía em lazer para as termas ou para a Europa.  Durante a sua ausência era o meu avô António que lhe tratava dos seus muitos e variados assuntos burocráticos.


Quando regressava trazia sempre um presente para a minha mãe. Este foi o primeiro de muitos.


O brinquedo é feito em folha de Flandres e é de corda. E fez as delícias da minha mãe, que coitada, nunca teve ordem de lhe tocar. Era a mãe ou a avó que lhe davam corda e então… era vê-lo partir indomável, intrépido, endiabrado, em correria desenfreada, rodopiando velozmente, voltando para trás, empinando-se, não se sabendo ao certo se era o cavaleiro que conduzia o cavalo se era o cavalo que conduzia o cavaleiro.


Também eu, em criança me diverti com ele… mas a história repetiu-se. A minha mãe dava-lhe corda e eu assistia perfeitamente maravilhada às façanhas deste cavalito. Tocar-lhe? Nem me atrevia! Se estendia a mão para o agarrar, sentia o olhar da minha mãe sobre mim, semelhante a alfinetadas, e a mão retraia-se de imediato. O cavalo também desde logo chamou a atenção dos meus filhos. Começaram por espreitá-lo na vitrine onde a minha mãe muito ciosa daquela relíquia, ainda hoje o guarda. Quando pediam para pô-lo a cavalgar pelo chão da sala, eu nem me atrevia a fazê-lo. Não fosse eu estragar algo tão religiosamente protegido ao longo dos tempos. Eram, ora o meu pai, ora  a minha mãe a fazê-lo.


Porque, todos nós, de geração em geração, não tivemos ordem de lhe pôr a mão durante a infância, ele chegou aos nossos dias em bom estado.


Até que um dia, não há muito tempo, inexplicavelmente, a corda partiu-se e o cavalinho imobilizou-se para sempre.


Ainda hoje, quando fiz algumas perguntas à minha mãe sobre o seu primeiro brinquedo para escrever este post, vislumbrei uma expressão triste no seu olhar e desabafou:


-Tenho tanta pena que ele já não possa correr!  

 

Os meus presépios

Já por aqui deixei escrito que foi a minha filha que me estimulou a realizar trabalhos em feltro.


Estava numa fase da vida em que necessitava de ocupar as mãos para libertar a mente e lavar a alma. Em momentos de grande stress ou cansaço, nada melhor do que ter as mãos ocupadas. Não conheço melhor terapia. À falta de melhor, nem que seja a arrumar roupeiros. Mas aprecio algo mais criativo.


O Natal avizinhava-se e a minha filha sabendo da minha paixão por presépios mostrou-me alguns que encontrou na internet. Achei-lhes graça. Não mexia em agulhas e linhas há uma eternidade. Mas se naquele momento procurava algo que me ajudasse a ultrapassar as tempestades da vida, que importância tinha a imperfeição da peça executada?

 

Absolutamente nenhuma! E comecei por este presépio.

 

IMG_5607.jpg

 

Não precisei de moldes. Olhei para a imagem no computador e desenhei-o. Os pontos saíram incertos, um mais abaixo outro mais acima. A distância entre eles também variava. Mas fiquei feliz. Era a minha primeira obra. E percebi que fazer estes trabalhos era pura terapia. Sentia-me mais relaxada e entusiasmada. Cheia de ideias. Era por ali o caminho. E todos cá em casa, satisfeitos com o meu entusiasmo, até me faziam acreditar que de verdadeiras obras de arte se tratavam.   


Seguiram-se outros presépios. Os pontos foram ficando mais certinhos e fui criando os meus próprios modelos.

 

IMG_0612.jpg

 

Os mais bonitinhos e perfeitinhos foram oferecidos a familiares e amigos. E desses não tenho fotos. É que a ideia do blog ainda não nos tinha ocorrido… Ponto… Pára tudo…


Já sei o vai por aí…


Vislumbro um sorrisinho ao canto dos vossos lábios; adivinho o que vos vai no pensamento:


“ Olha para esta, sabe-a toda! Que grande espertinha! Como não tem fotos diz que os presépios até ficaram perfeitinhos!!!”


Depois experimentei outras técnicas. Mas tenho um defeito. Faço apenas para experimentar. Usei pasta de modelar – fiz apenas um presépio; pintei numa pedra da praia – fiz apenas um; Usei pauzinhos – fiz apenas um; Fiz em crochet – fiz apenas dois…  E assim não aperfeiçoo nenhuma das técnicas!

 

IMG_0609.jpg

IMG_5600.jpg

IMG_5602.jpg

IMG_5603.jpg

IMG_5604.jpg

IMG_5605.jpg

 

Presentemente gostaria de treinar os presépios em crochet. Vejo-os lindos mas não são tão fáceis de fazer como parecem.


O último presépio aqui apresentado foi terminado há poucos dias e feito muito, muito à pressa. E, muito encarecidamente, peço-vos o de  favor de não reparem na ovelha ou, para ser mais exacta,  na pseudo-ovelha. É que a pobrezita saiu-me com focinho de rato, orelhas de porco e patas de escadote… Foi o melhor que se pode arranjar. Muito agradecida…

 

IMG_5613.jpg

 

 

E já agora, para todos vós, um feliz Natal com muita Saúde Paz e Harmonia.

Os Natais da minha vida

Gosto do Natal. Embora esta quadra desperte em mim sentimentos contraditórios.


Incomoda-me o consumismo desenfreado, irrita-me a corrida desvairada de loja para loja. Choca-me o culto do objecto.


Gosto do Natal na sua verdadeira essência, pela celebração do nascimento de Jesus, pelo que simboliza em termos de partilha e de dádiva, de união da família.


Recordo com carinho os doces Natais da minha infância e adolescência. Vivendo longe de CASA, entendendo-se, por CASA a nossa terra natal e a casa dos meus avós, o Natal era o momento dos encontros familiares.
Quando vivíamos no Alentejo estávamos a cerca de 500 Km de distância. E, naquele tempo, 500 Km eram bem mais compridos de que hoje.


As estradas eram péssimas, estreitas, esburacadas e cheias de curvas. O nosso carro era velho, a cair de podre, comprado para aí em décima segunda mão. Numa única viagem tivemos três furos e demorámos 16 horas.


Mas chegávamos de coração cheio. E que alegria rever os meus avós, tios e primos, os tios que lá viviam e os que também, tal como nós, se deslocavam à terra para em conjunto celebrarmos a festa da família.   


Recordo as consoadas na cozinha do meu tio Zeca, junto da grande lareira à volta da qual todos nos reuníamos. Esqueciam-se as tristezas, as preocupações. Só havia alegria e boa disposição, celebrando o prazer de estarmos juntos. E que conversas saborosas adoçadas pelos velhozes que a minha tia ia fritando e que comíamos ainda quentinhos.


Depois, noite dentro, chegava o Menino Jesus. Descia pela chaminé e deixava os presentes nos sapatos que colocávamos na lareira antes de irmos para a cama.
A noite era mal dormida. Ansiavamos pelo clarear do dia para corrermos para a cozinha e depararmos com a surpresa dos presentes. Alegria no estado puro.
Tentei transmitir aos meus filhos a magia dos Natais que vivi. Mas não consegui competir com o markting televisivo nem com os coleguinhas de infantário que recebiam presentes oferecidos pelo Pai Natal colocados junto da árvore. De Menino Jesus nem rasto…


 Quando tentava que deixassem os sapatos junto do fogão, olhavam-me de soslaio,  argumentando com todo o pragmatismo que não havia Pai Natal que descesse pelo exaustor… E dei-me por vencida…  


Para mim, mais do que a árvore, são os presépios que melhor simbolizam o Natal. Representam a Natividade e a união da família.


Há poucos anos comecei a coleccioná-los. Presentemente são 101. Uns comprados por mim, outros oferecidos. Os meus filhos têm contribuído bastante para o engrossar deste número. Tenho-os nos mais diversos materiais, uns de prata outros de lata, de madeira, barro, pano ou serrapilheira. De plasticina, lã, cortiça ou com traços de tinta da China. Uns mais tradicionais, outros mais originais. Os nacionais e os internacionais.


Decorar a casa com eles leva o seu tempo. Muito tempo. Mas é grande o prazer ao ver a casa preparada para as festividades que se aproximam.

 

1 (1).jpg

2 (1).jpg

3.jpg

4.jpg

9.jpg

13 (1).jpg

8.jpg

5.jpg

6.jpg

7.jpg

10.jpg

11.jpg

12.jpg

14.jpg

15 (1).jpg

16 (1).jpg

17.jpg

18.jpg

 

 


   


 

Como os primeiros se podem tornar os últimos

IMG_5475.jpg

 

Quando aprendi a bordar a ponto de cruz e comprei a primeira revista, este Pai Natal chamou-me logo a atenção. Fiquei encantada com ele e de imediato decidi que iria ser a minha primeira obra. Os meus filhos, ainda pequenos, iriam ficar felizes por vê-lo a decorar a casa na quadra natalícia.


Mas o Natal ainda vinha tão longe que resolvi bordar primeiro um quadro para o quarto da minha filha. Faltavam tantos meses, iria ter tempo para tudo.


Mas a gestão do tempo nunca foi o meu ponto forte. Chegou o Natal…. E o quadro da minha filha por acabar.


O Pai Natal podia esperar mais um anito…


Quadro terminado.


Tccchhhiiiii! Faltava tanto para o próximo Natal!


Dava tempo para fazer outro quadrito para o quarto da miúda. É que um quadro só na parede dava assim um ar de coisa abandonada.


E chegou outro Natal…


 O Pai Natal continuava a esperar pacientemente escondido entre as páginas da revista.  


Ao todo fiz cinco quadros para o quarto da pequena. Na parede faziam uma composição engraçada. Predominavam os tons de rosa, a cor que a minha filha preferia quando era criança.


E vários Natais se passaram…


 E o Pai Natal continuava a aguardar pacientemente a sua vez.


Depois mudámos de casa.


 A cozinha com uma barra em azul estava mesmo a pedir uns quadros nesta tonalidade.
 E bordei quatro quadros que ainda por lá estão. (É verdade, eu que já andei por aqui a postar rendas e bordados da cozinha, esqueci-me dos quadros a ponto de cruz. Qualquer dia por aqui aparecerão).
Depois seguiram-se os quadros alusivos ao meu casamento e ao dos meus pais. Mais alguns que bordei para oferecer a amigas.


E o Pai Natal esperando…


Depois… o entusiasmo pelo ponto de cruz foi esmorecendo…
É que os meus olhos pediam clemência. Aquele quadrilé fino com aqueles buraquinhos invisíveis deixavam-me atordoada e com dores de cabeça monumentais.


Esqueci o Pai Natal…


Há alguns anos volto a folhear a revista e lá continuava o Pai Natal de saco às costas carregadinho de prendas. Olhava-me com um ar levemente irritado. Afinal as promessas são para cumprir e eu falhara.
 Quem promete e não cumpre vai para o inferno! E com coisas sérias não se brinca. E promessas ao Pai Natal são para levar mesmo, mesmo a sério.


Falhara com ele e com os meus filhos que, agora já adultos, nunca tiveram o prometido Pai Natal a colorir as festas natalícias da sua infância. Senti-me em dívida para com ele e para com os filhos. Mas as dívidas podem ser pagas e as promessas podem ser cumpridas. Fui à retrosaria e pedi o quadrilé com os maiores quadradinhos que lá houvesse e comprei linha de bordar adequada.


E lá comecei a minha obra.


Entusiasmei-me e bordei-o em três tempos, ora piscando o olho direito, ora piscando o olho esquerdo, lacrimejando. Vendo tudo enevoado! Muitas dores de cabeça à mistura. Mas nada me tirou o prazer de o bordar.  Depois de emoldurado passou a fazer parte dos nossos Natais. Há uns quatro ou cinco anos.

 

IMG_5477.jpg

 
Há relativamente pouco tempo ainda me enchi de boa vontade e comecei a bordar um presépio. Muito simples. Mas onde estavam os quadradinhos e os buraquinhos para enfiar a agulha?!


Nem vê-los! E desta vez nem o Menino Jesus me valeu.

 

 Podem também seguir-me no Instagram!

 

A Alzira

IMG_5130.jpg

 

A Alzira era uma velha amiga da minha mãe. Conheciam-se desde crianças.

 

O pai era padeiro e, de menina, a Alzira começou a ajudar a família distribuindo o pão pelas mercearias da vila. Quando chegava junto da minha mãe pedia-lhe lápis e papel e, em meia dúzia de traços, satisfazia a sua urgente necessidade de criar. A minha mãe guardou alguns desses desenhos e lembro-me de, entre eles, do retrato que fez da Beatriz Costa. Estava tal e qual, feito assim de memória, mas com um traço original, único e inconfundível. A minha mãe guardou-os por muito tempo mas, inexplicavelmente, esses desenhos perderam-se nalguma limpeza mais profunda. Infelizmente.

 

IMG_5132.jpg

 

A Alzira casou e foi viver para Lisboa. Fazia trabalhos de costura.

 

Depois de enviuvar regressou à terra e foi então que a conheci. Apesar de apenas ter concluído a quarta classe era uma mulher culta, sensível, de mente aberta e à frente do seu tempo. E passei a admirá-la profundamente. Visitá-la era um prazer. Era um prazer conversar com ela e observá-la no seu espaço, criado à sua imagem e semelhança.

 

Gostava de levar comigo os meus filhos que aprenderam também a apreciá-la. Tinha sempre um miminho para eles, um fóssil, uma pequena pedra que lembrava um animal. E eles ficavam felizes.  

 

IMG_5113.jpg

IMG_5187.jpg

 

A Alzira em tudo descobria beleza. Numa pequena pedra, num tronco retorcido, numa planta singela. Levava-os para casa e estes materiais tão simples transformavam-se em obras de arte. Como uma pedra que tinha no parapeito da janela. Colou-lhe um pequeno botão a fazer de olho e a pedra transformou-se num coelho pronto a saltar para o nosso colo.

 

E a casa da Alzira? Tão simples por fora como por dentro mas tão única! Única na concepção do espaço, nas peças antigas que a decoravam, nos quadros do filho, artista plástico, e nas peças criadas por ela.

 

 E as peças criadas pela Alzira? Com tecidos, agulhas, linhas, lãs, rendas e botões antigos, saíam peças inimagináveis. E que peças! Colchas, almofadas, bonecos, painéis… eu sei lá!

 

IMG_5126.jpg

IMG_5170.jpg

 

Certa vez, para um concurso de montras decoradas com motivos de Natal, a Alzira fez um presépio absolutamente fabuloso com dezenas de peças. Um presépio em pano em que as personagens surgiam decoradas com rendas, bordados, missangas, pequeninos botões. Uma obra de arte. Estava tão lindo que a Câmara Municipal decidiu comprá-lo. O mesmo sucedeu com um casamento com perto de uma centena de figuras, desde noivos, padrinhos, menina das alianças e convidados, muitos convidados.

 

Pena é que ambos, presépio e casamento, não estejam expostos no Museu Municipal. Mereciam estar ao dispor de todos os que apreciam estas artes e seria uma justa homenagem a esta artesã da terra a quem a Câmara Municipal tanto gostava de recorrer quando pretendia presentear algum ilustre visitante. Espero bem que não tenham sido comidos pelas traças…   

 

A Alzira não precisava de revistas ou livros para se inspirar. Muito menos de internet, que ainda não estava acessível no seu tempo.

 

Certo dia perguntei-lhe onde ia buscar tanta inspiração. Respondeu-me:

 

-Olho ali para aquela parede branca e vejo lá tanta coisa!

 

Depois era só por mãos à obra…  

 

IMG_5165.jpg

IMG_5166.jpg

 

 Podem também seguir-me no Instagram!